A barbárie no mundo da infância

No início dos anos 1990, a região central do Rio de Janeiro foi tomada por uma legião de meninos de rua. Fugidos de lares violentos ou de instituições sociais, o grupo se concentrava nos arredores da Igreja da Candelária. Por conta dos furtos que cometiam, era comum os menores serem perseguidos e detidos por policiais da delegacia local, fomentando um crescente clima de tensão. Até que, na tarde do dia 22 de julho de 1993, durante uma nova ação de prisão, os meninos reagiram, lançando pedras contra a viatura e quebrando o vidro traseiro do carro. Na madrugada subsequente, enquanto cerca de 40 deles dormiam, os policiais retornaram e atiraram contra o grupo, num ato de represália. Duas crianças e seis adolescentes morreram, naquela que ficou mundialmente conhecida como a Chacina da Candelária.

É também, em 1993, que o personagem-narrador de República luminosa, do espanhol Andrés Barba, chega a San Cristóbal, para a assumir a direção do Departamento de Serviço Social. Dois anos antes, ele havia desenvolvido um bem-sucedido programa de integração de comunidades indígenas, e o cargo lhe foi oferecido de forma que reproduzisse o projeto na cidade. Encravado entre uma selva profunda e um rio caudaloso, o lugar abriga os nativos da comunidade Ñeê.

Assim, traz consigo a esposa, professora de música, e a filha dela, de 11 anos, ambas de nome Maia. Afora o insuportável calor subtropical, a adaptação corre bem, o salário é bom e o cotidiano se calibra na relação com a enteada, nas aulas da esposa e na atenção ao cotidiano da cidade, marcado por contrastes sociais, políticas provincianas e falta de cuidado, sobretudo, com o povo indígena, que circula pelas ruas em visível situação de miséria.

Daí, aparecem as crianças; 32, entre nove e 12 anos. Como que surgidas do nada (ou “brotadas do rio”), elas tomam San Cristóbal, agindo na condição de uma horda que parece falar um idioma desconhecido e tem a capacidade de se comunicar telepaticamente. A princípio, apelam pela mendicância, depois passam a cometer pequenos furtos, assaltos, entrando numa escalada de violência. Até que, certa manhã, invadem um supermercado num ataque coordenado de fúria, que termina com duas mortes. Em seguida, desaparecem por cerca de um ano, desencadeando uma caçada policial pela selva e uma sorte de acontecimentos irreversíveis pela cidade.

O romance é, enfim, a reconstrução da memória desses fatos. O narrador está a 22 anos do ocorrido, revivendo os dias de enigma e brutalidade, na condição de testemunha e agente desse passado. De pronto, ele anuncia que todas as 32 crianças estão mortas, que o fim será o começo do seu relato, ainda que não sejam contrapartes que se anulem. E é isso que faz de República luminosa um dos livros mais geniais lançados esse ano no Brasil: a maneira sui generis com que Barba arma a estrutura narrativa, conduzindo o leitor, de maneira hipnótica, rumo a um desfecho previamente revelado, mas que, até as últimas linhas, nunca deixa entrever o modo como se sucede.

É uma narração realista, com aspecto documental, mas que, ora em vez, também se volta para dentro, travando reflexões profundas e adentrando o terreno caloroso das relações afetivas. Há de tudo um pouco: tratado sobre paternidade, crítica social, atmosfera de fábula, frequência de mistério, flerte com o sobrenatural, crônica jornalística. E tudo se encaixa perfeitamente bem, construindo um cenário para se discutir o mito da inocência infantil; ou melhor, a deformação desse mito, uma visão distópica dos anos pueris.

Não por menos, muitas passagens ganham uma intensidade de pesadelo, modulada através de interpretações hiperestésicas da história. Evocam referências do clássico O senhor das moscas, de William Golding, e, mais ainda, de Os meninos, do também espanhol Juan José Plans. Para além dessa compreensão subjetiva, a contextura se dá através de artigos, gravações, documentos, fotos, um livro escrito por uma menina da época, testemunhos da população e a vivência empírica do narrador. A certa altura, surge um elo entre o passado que a ele abraça e o passado de uma dos meninos selvagens, dando um rumo inesperado (e agudo) para o entendimento de proteção e descendência.

Impressiona, em casos como esse, como o autor nunca deixar cair o ritmo, conduzindo o texto com extrema habilidade, de maneira sólida, elegante e inteligente. Uma forma artística de vincular a literatura ao eixo de uma solução estética que permite alguns sentidos de leitura, sem perder a força em quaisquer desses níveis. Funciona muito bem como peça de entretenimento, inquietante, misteriosa, transitando entre o suspense e o horror, no engendrar de um conteúdo magnético a ser lido num fôlego só.

Porém, se o leitor se permitir acessar camadas mais profundas, encontrará um depurado estudo sobre a barbárie; um pensamento crítico que se opõe à apatia moral para alertar que, negligenciando as milhões de crianças abandonadas pelas ruas, já a matamos na decisão pelo descaso, cometemos chacinas ao desviar nossos olhos de seus rostos sujos, torcendo por uma intervenção do acaso tão suspeita que está a um pé da irrealidade.

A infância é mais poderosa do que a ficção, declara o narrador. E essa é a maior certeza que se encontrará nesse romance extraordinário de Andrés Barba.

 

 

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Livro: República luminosa

Editora: Todavia

Avaliação: Excelente

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