Fantasmas no álbum de família

Muitas vezes a literatura brasileira coloca a família como o centro de suas narrativas. De todas as incursões por esse terreno de solo variado, a que mais me cativa constitui o primeiro volume da saga memorialista do médico mineiro Pedro Nava.

Em Baú de ossos, o autor reconstitui os primeiros oito anos da sua infância, percorrendo os caminhos que se consorciaram para a formação de sua genealogia, ao mesmo tempo que compondo um vibrante panorama da sociedade e da cultura brasileira na transição do século XIX para o XX.

O maior mérito de Nava, no entanto, está (a meu ver) na prodigiosa maneira com que retrata o universo familiar como um espaço dramático de experiências fielmente humanas, no qual vida e finitude digladiam-se a todo o tempo, produzindo um resíduo sentimental composto de pesares, prazeres e pecados que resultam numa ideia de legado.

Não por menos, o livro é incidido pelo trauma causado pela morte precoce do pai. Não por menos, são páginas assombradas por fantasmas, onde o autor com mão paciente vai compondo um puzzle que é impossível completar porque as peças que faltam deixam buracos nos céus, hiatos nas águas, rombos nos sorrisos, furos nas silhuetas interrompidas e nos peitos que se abrem no vácuo – como vitrais fraturados (…), céus profundos, árvores ramalhando ao vento, aviões, nuvens e aves fugindo.

Fato é que tive comigo sempre a presença de Nava, no curso da leitura de Desabraçar, reunião de contos do também mineiro Adriano de Paula Rabelo. Naturalmente, o tema central das narrativas é a família; as relações parentais, em diversos graus, examinadas sob a ótica das perdas, das fraturas, dos rancores, dos acertos de contas, da redenção.

São personagens assombrosamente humanos, espelhando o livro de Nava em sua capacidade de converter a matéria (auto)biográfica em matéria ficcional, sem que deixe, de fato, de ser a transcrição da verdade. Os textos de Rabelo, ainda que estritos ao campo da fabulação, são tão verossímeis, que parecem biografias contadas, retratos da vida.

A causa está na maneira desataviada de conduzir sua escrita. Direta, segura; livre de muletas estilísticas ou estranheza poética. Há uma semelhança, inclusive, ao ofício do cronista. Muito embora o autor vá mais a fundo, explorando a complexidade dos sentimentos, de modo a alcançar o nível da porção anímica.

Tal procedimento se dá logo no conto de abertura, o fenomenal “Só se morre sozinho”. Abandonado numa enfermaria de hospital público, um homem revê seus erros na condução da paternidade e do matrimônio, diante da morte iminente. Seu passado de vícios e adultérios o tornou um ser lastimável para os filhos adultos, divididos entre o ódio e a pena. A esposa é a única que lhe assiste sem rancor, embora desavisadamente leve no sangue “o mal incurável” que o marido tenha lhe transmitido.

É impressionante como Rabelo desenha seus personagens e lhes atribuem dimensão psicológica, sem lançar mão de desvios narrativos para acessar episódios que forneçam elementos para moldar as personalidades desses indivíduos. Tudo ocorre de maneira fluída, sem perder tensão ou se afastar, a momento algum, da trama em curso.

“Minha irmã ao longe” e “Meu tio dormindo”, que vêm na sequência, tratam, de formas distintas, de despedida e torto aprendizado. O primeiro se constrói na relação conflituosa entre duas irmãs, acentuada pela proximidade do casamento de uma delas. Ao passo que o segundo se coloca aos olhos de um menino, diante de um suicídio na família.

Desse trio, é possível constatar uma característica recorrente e muito peculiar dos textos de Rabelo. A tessitura de suas narrativas nunca evoluem num crescendo, de modo a armar uma reviravolta ou um desfecho impactante. As situações se resolvem num tom brando, encerrando-se numa espécie de tendência reflexiva, que não chega a ser anticlimática, mas induz a uma sensação de final indefinido que, mais à frente, fará todo sentido.

Isso porque (e, para alguns, pode ser spoiler, embora eu não ache que estrague a experiência de leitura) alguns contos continuam em outros, deslocando personagens secundários para a posição de protagonista e, muitas vezes, transformando a percepção que o leitor tinha formulado anteriormente. É um procedimento muito interessante e que estabelece, ao longo da leitura, um conceito de unidade que independe do fato de todos os textos descenderem da mesma temática.

O único problema (ainda que possa parecer contraditório, diante de um autor tão pronto e habilidoso) está na quantidade. São 26 contos, no total. Mesmo que alguns se complementem, as naturezas de determinados enredos acabam por se parecerem, amortecendo a força do conto que veio depois.

Com uma seleção mais comedida, Desabraçar estaria, sem sombra de dúvida, entre os cinco melhores livros de contos de 2018. Mesmo assim é uma ótima coletânea, que merece ser lida, celebrada e “ramalhada ao vento”.

 

 

***

 

 

Livro: Desabraçar

Editora: Patuá

Avaliação: Muito Bom

Um comentário sobre “Fantasmas no álbum de família

  1. Sensacional!!!
    Um grande escritor, amigo pessoal, tive o previlégio de conhecê-lo e compartilharmos um apartamento em um momento difícil de minha vida!
    Orgulho-me de estar presente no lançamento deste livro, um dos contos Rabelo já havia me narrado pessoalmente, me fascinou de ter lido tântos detalhes que havia esquecido!
    Meus comprimentos Professor Rabelo pela obra fantástica!!
    Grande abraço e sucesso!!!
    Dado

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