Contos conduzidos em marcha dupla

Em chaves de alta e de baixa tensão, os contos de A bicicleta de carga, de Miguel Sanches Neto, são regidos pela soberania do desejo. Uma década depois, o autor paranaense retorna às formas breves, trazendo personagens seduzidos pelo afã de alcançar e/ou de aprisionar algo, que sempre lhes escorrem entre os dedos.

Pode ser o resgate de uma emoção do passado, uma paixão platônica, a conquista subversiva do prazer, a tentativa de mudar o próprio destino. Não conseguem, e essa fratura nos alicerces da condição humana irradia essas histórias com estados de angústia, incompletude e solidão.

“Todas as mãos”, que abre o livro, é uma relato delicado sobre uma mulher, que ganhou um piano da mãe na infância, e agora tem de lidar com a carga afetiva do instrumento e a contraparte da vida adulta. Durante um tratamento de restauração da madeira, uma história ancestral vem a lume, cruzando com a sua própria e a impossibilidade de aceitar o fim tal qual as lembranças que se apagam ante o silêncio. Um piano está sempre à espera de nossas mãos, resume um personagem, ainda em hastes simbólicas.

Sanches Neto articula muito bem seus enredos entre camadas, à sombra também do que corre explícito; o sugerido, o insinuante.

“Segundo toque”, que vem em seguida, é um exemplo robusto desse procedimento de escrita. Quase um microconto, a narrativa se inicia a partir do instante em que o narrador vê uma placa de carro que o arremessa a um passado que data vinte anos. É incrível a maneira como o autor se vale de poucas frases para desenhar uma atitude que representa a refiliação a um caso amoroso. Não se esquece de algo para sempre. Uma hora tudo volta, alerta.

O mérito está no bom uso de um componente elementar para a formulação de um conto: a tensão. Não somente na ordenação das frases (e, naturalmente, no andamento), mas na construção da atmosfera. Assim acontece nos três textos subsequentes, nos quais o clima se eletrifica, pouco a pouco, de uma alta voltagem erótica.

“Amor em Madri” acompanha um turista na cidade espanhola, que acaba por se aproximar de um casal de brasileiros. Desde o princípio, mínimos gestos e insinuações levam a conjunção de um triângulo amoroso, que não se concretiza. O sexo, porém, não é o interesse do autor, mas a manipulação da expectativa do leitor frente a esse desejo.

“Pequenos aracnídeos” e “Banho de cachoeira”, por outro lado, focam exatamente na atração sexual como base para o estudo de personagem.

São contos complementares, protagonizados por Rodrigo, um jovem que, na busca contumaz por sexo, acaba se relacionando com Cássia, uma colega de doutorado. Um convite para a visita a uma chácara revela, então, que a amante é casada com um professor e mãe de dois filhos. Mesmo assim, os dois transam durante um banho de cachoeira (sugestivamente com a anuência do marido), sendo agentes da cena mais tórrida e estimulante do livro.

As duas narrativas que finalizam a primeira parte giram a chave para uma visada mais introspectiva. “Sr. Nelson” trata de legado por meio da relação de um homem com o hotel que gerencia e o filho, ao passo que “Pintado para a guerra” é levado por um escritor enfermo de câncer que atribui seu bloqueio ao sucesso de outro escritor.

Há de se notar que a doença aparece outras vezes na antologia, dando o tom da segunda leva de contos que, salvo duas exceções, ocorrem em subsolos psicológicos, na nascente de uma atitude narrativa que se envereda por traumas, por imposições irrefutáveis da natureza humana.

É o caso do ótimo “Mundo móvel”, que tem um cerne argumental intuitivamente filosófico. Uma família condenada a permanecer numa mesma cidade se vê sobre um ponto de interseção, quando um jovem decide quebrar o ciclo. Centrado em diálogos, o texto é uma cativante conversa entre pai e filho sobre a passagem do tempo.

“Cheiro de grama cortada” (tal qual “Senhoras da noite”) traz de volta a força do erotismo, na conduta de um adolescente que furta calcinhas do varal da vizinha balzaquiana, dando conta de um gatilho para uma situação inesperada de descoberta sexual. O autor é muito perspicaz ao retornar à sintonia anterior, tratando de desejo, embora num tom melancólico, em “Não há trégua”, um conto de uma frase: Quando a moça, ao cumprimentá-lo, esfregou os peitos nele, lembrou-se da esposa com tumor no seio.

Outra vez o câncer funciona como elemento de desconstrução, ressurgindo no deslocado “A linguagem roubada”, uma abordagem sardônica sobre o meio literário, e, por fim, em “A bicicleta de carga”, texto que empresta nome ao livro.

Na trama, um rapaz que trabalha fazendo entregas com uma bicicleta de carga tem seus arroubos de puberdade ceifados ao descobrir a doença que carcome a mãe por dentro. A cena em que ele pedala a toda força, com um enorme saco de arroz vazando pelo caminho, é de um significado feroz ao mesmo tempo que comovente, de certo modo combinando as diretrizes e os mecanismos de escrita propostos pelo autor.

Miguel Sanches Neto tem o domínio e a precisão dos bons contistas, imprimindo uma linguagem que, embora suave e limpa, carrega uma soma de simbolismos e dobras evocativas. Com isso, suas narrativas retratam instantes ordinários que avançam rumo a recônditos pulsantes da condição humana. Contos conduzidos por tensão em marcha dupla.

 

 

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Livro: A bicicleta de carga

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Bom

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