Fraturas na ordem regular das coisas

Setenta anos depois de o mineiro Murilo Rubião estrear com os contos insólitos de O ex-mágico, a literatura brasileira continua a produzir autores que se embrenham pelos caminhos enevoados do fantástico, de modo a percorrer esse universo pródigo pela deformação da realidade como a conhecemos.

A grande questão é se o fim da travessia irá resultar em algo original, interessante e criativo, ou em meras reproduções do que está consolidado, vendido ao pretexto de que se trata de uma homenagem, revisões preguiçosas com ares de tributo.

Primeiros dias do verão eterno, do paulista Roger Lombardi, é um caso curioso, pois fica bem ali, no meio-termo. Os oito contos que integram a antologia não primam pela novidade, mas são tão bem executados, que surpreendem. O segredo está no entendimento do autor sobre o mecanismo que dá forma ao gênero. Suas narrativas têm atmosfera e tensão, tragando o leitor para a elaboração de um mise-en-scène no qual o extraordinário vai tomando gradualmente o real, sempre acoplado a uma chave de mistério.

O texto da orelha informa que os contos foram inspirados em nomes como Nelson Rodrigues, Herman Melville e Nikolai Gogol. Sim, há elementos claros das obras desses escritores (em especial, dos dois últimos), todavia, mesmo que de forma involuntária, é impossível não se recordar da literatura de Rubião no decorrer da leitura.

Logo na primeira narrativa, “A macieira”, a forte referência bíblica evoca uma das principais influências do escritor mineiro. Rubião era tão fascinado pelo Livro Sagrado, que praticamente todos seus textos são precedidos de citações extraídas dali. O conto de Lombardi, nesse contexto, tem inspiração no Gênesis.

Certa manhã, Samuel descobre que, no pomar vizinho, a macieira brotou três frutos enormes, do tamanho de abóboras. Ele vai correndo avisar ao dono do terreno, o amigo Josué, que reage, a princípio, com um misto de incredulidade e contentamento. O inusitado, no entanto, vai cedendo lugar a uma confusão acerca da ideia de milagre/concessão divina, que degringola num ataque de violência. É um tipo de parábola, que insinua paralelos com o pecado original e o sacrifício do infante.

O conto seguinte, “A luz no topo da montanha”, explora o elemento sobrenatural. As primeiras frases dão conta de um pai observando o filho morto sobre a mesa. O bebê está enrolado em faixas de algodão à espera do enterro. O homem decide, porém, ensurdecer-se aos apelos da esposa e do padre, levando o corpo até o alto de uma montanha, onde (corre a lenda) os cadáveres voltam à vida. A narrativa se desenvolve no movimento da jornada, incorporando personagens e camadas.

É o melhor conto do livro, e concentra uma soma de atributos para ter ganho mais fôlego e se tornado uma novela, caso o autor assim quisesse.

“A cadeira” tem uma revelação final surpreendente, embora dê muitas voltas na condução até lá. “A carona”, sobre um viajante que se depara com uma mulher e um homem ferido numa estrada escura, fugindo de algo inominável, retoma a temática etérea, adicionando um quê de sci-fi. É um conto que acentua o poder imagético dos textos.

“Até o amanhecer” (cujos aspectos da trama são muito semelhantes aos de “A armadilha”, de Rubião) e “O oficial” fazem parte de uma formulação do fantástico que ocorre na transcendência do mundo real para um plano que não se sabe onírico ou espiritual. “Morangos” tem qualidades, mas está mal escalado, claramente fora do contexto.

A antologia chega ao fim com “O caminho para o jardim”, que reúne ingredientes antevistos, apostando num tom de paranoia para exaltar aquele que, de uma forma ou de outra, parece ser o propósito do livro: instituir duas frequências narrativas que tratam da irracionalidade e do inatural, e que, a qualquer momento, vão se cruzar.

Com seus contos, Lombardi pretende uma expansão imaginária que provoca uma ruptura da percepção mundana sobre a ordem regular das coisas.

 

 

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Livro: Primeiros dias do verão eterno

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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