Uma orgia de referências filosóficas

Embora contenha toda a carga sexual a que se refere seu título, Ménage à trois está mais conectado ao sentido literal da expressão francesa: “família de três”.

Não que o novo romance de Daniel Lopes Guaccaluz trate de relações incestuosas (por Deus, não!), mas molda o conceito de amizade aos olhos de um relacionamento poliamoroso, construindo um arranjo no qual (por afeto, por libido, por carência) se institui uma triangulação fraternal.

Um pacto que transcende o desejo carnal, a comunhão acerca do prazer coletivo, entendendo (ou tentando entender) o consenso entre três pessoas pela busca de um grau de sentimentalidade e de libertação espiritual, que os conduzam a um conhecimento filosófico.

E é isso, afinal, a que se dedica o conteúdo do romance: tramar a ficção dentro de um escopo configurado pela filosofia, no qual se sobressaem princípios regidos pela ambiguidade, num primeiro momento indevassáveis, mas que se revelam instrumentos de reflexão/observação à medida que cenas do passado desses personagens vêm à tona.

O narrador é Daniel, um professor de artes bem na meia-idade, que se acomodou a um serviço medíocre “para garantir o pão”. (…) ninguém quer saber de arte. De bom grado, as pessoas se transformam em alicates e chaves de fenda. O importante é funcionar, resigna-se.

Certo dia, ele reencontra Maria Eduarda, a colega Duda, da infância, que não via fazia trinta anos. A partir daí, fragmentos pregressos começam a assombrá-lo (os medos e os sonhos de infância, a visão mirim de mundo, os traumas, as despedidas), levando-o ao embate contra quem se tornou. O reatamento da amizade passa a ser, desse modo, uma forma de girar uma chave para o acesso a um novo sentido para sua vida, e resolve convidar a antiga amiga para sair.

Duda aceita, e (re)iniciam um relacionamento de diálogos frívolos, provocações e críticas sobre de tudo um pouco. Até que, numa visita a uma exposição, puxam papo com Anabela, uma cirurgiã plástica apaixonada por artes. Dali saem juntos e, entre afinidades e alfinetadas, engatam uma série de encontros que irão conduzi-los a uma mesma cama, a uma relação abrasiva de poliamor, ao tal ménage à trois do título.

Guaccaluz constrói seu mise-en-scène a partir de demarcações que o leva a discorrer sobre teorizações filosóficas, da maneira mais pedagógica a mais sutil. Nomeie um filósofo ou um pensador moderno que, certamente, ele estará ali. Com isso, o autor toca em temas dos mais diversos, no contexto e para além de seu enredo. A amizade, o amor e o sexo são os mais sensíveis, contudo corre, nas entrelinhas, uma dissertação sobre o antropocentrismo, o homem colocado como centro do universo.

Não por menos, o extraordinário é enxergado no nível mais pedestre, a exemplo da clínica estética de Anabela onde mendigos adentram e morrem do nada, numa alusão aos ratos em A peste, de Camus. Ou Diana, a cadelinha de estimação de Daniel, que fala com ele, na infância, de modo a personificar sua interação com os próprios sentimentos.

Outras passagens margeiam essa seara do fantástico, servindo de acessos para alcançar um plano livre da coerência orgânica do mundo real que, pelo ponto de vista do narrador algemado a propósitos dos mais arbitrários, fundamenta a existência errante dos personagens.

O grande problema é que o autor aplica esse mesmo conceito à forma do livro, e tudo fica muito desarrumado, sem costura e dependendo sempre de uma tração oriunda de uma visada filosófica. Não atrapalha o entendimento geral, todavia gera uma queda de braço entre o academicismo e a ficção, no qual a ficção acaba perdendo.

Ménage à trois traz uma história afetiva e picante entre amigos de curta e de longa data. É ousado, de certo modo controverso, porém acaba enfraquecido pela orgia de suas referências.

 

 

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Livro: Ménage à trois

Editora: @link

Avaliação: Regular

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