Visto sobre desterro e amores ruins

As baratas estão entre as obsessões de Clarice Lispector. Uma infestação delas aparece no conto “A quinta história”, no qual uma receita para o extermínio das cascudas funciona como gatilho para uma transcendência existencial. Em A paixão segundo G.H. (seu melhor livro), há um efeito semelhante. Depois de esmagar uma barata, a protagonista embarca numa viagem de desvario, que singra planos metafísicos em busca de um conhecimento que decifre o enigma da própria existência.

A certa altura de Desamores da portuguesa, a personagem do título também é levada a tomar uma decisão de ruptura por conta de uma barata. Traumatizada em razão de um assalto que por muito pouco não terminou em tragédia, ela se depara com uma barata castanha se esgueirando para a escuridão debaixo do berço da filha.

Está em São Paulo, cidade que se mudou para viver com o marido brasileiro. Mas odeia o Brasil e, principalmente!, os brasileiros (as fotos do Cristo Redentor, o sambinha de raiz, a coxinha de galinha). Depois de sobreviver à violência, o inseto é a última ameaça contra qual prometer defender a filha. Chama o marido e diz que vai embora. Acabou.

Essa é a primeira história que a portuguesa conta à narradora do romance de Marta Barbosa Stephens. O livro da autora recifense radicada na Inglaterra é um monólogo sobre o outro, um intenso exercício de alteridade. Duas mulheres que se encontram casualmente, uma relata suas angústias e a outras as amoldam ao formato literário.

O ponto de ignição são os filhos. A narradora, uma brasileira, conhece a portuguesa na escola na qual suas filhas convivem, na Inglaterra. A princípio, o que lhe chama atenção é o estado físico arrasado da mulher: magra de curvar, envelhecida para seus 41 anos, derrotada.

Algumas frases trocadas, a narradora descobre que a portuguesa vive, há três anos, um processo intratável de não pertencimento, de expatriação. Não fala inglês (e nem se esforça em aprender), abriga-se de favor na casa no pai (um homem rude) e cuida sozinha de duas filhas (a terceira reside no Brasil).

A partir daí, elas começam a se relacionar, em encontros cada vez mais constantes, e o motivo da ruína da personagem em proscênio se revela. Seus desamores, suas paixões negativas que resultaram em três casamentos naufragados, três filhas, três ex-maridos e a sensação reticente de que seus fracassos são frutos de algum tipo de doença.

Marta Barbosa Stephens acerta na composição do formato. São três capítulos distintos que se debruçam sobre cada relacionamento, traçando um panorama dos primeiros dias até o derradeiro, por meio de acontecimentos fortuitos (bons e ruins) e da monotonia dentada do matrimônio.

Em relação ao conteúdo (especialmente no que corre subjacente a ele), alguns pontos funcionam, enquanto outros não se encaixam ou são subdesenvolvidos.

A construção da personagem principal é bem-feita; sobretudo por não vitimizá-la. Pelo contrário. A portuguesa é xenofóbica (há falas pesadas contra a maneira de ser dos brasileiros), toma decisões, no mínimo, controversas e apresenta um tipo de distúrbio que pode (ou não) explicar os rumos pedregosos que sua vida percorreu.

Por outro lado, a narrativa margeia alguns assuntos que, no contexto em que aparecem, poderiam ser explorados com mais cuidado, a exemplo do estudo da depressão/comportamento autodestrutivo e o flerte a uma tensão psicológica. O problema maior, no entanto, está em certas digressões que se atêm a personagens incidentais, que nada trazem de relevante ou de complementar para o arco central. De fato, apenas desviam o olhar do leitor de uma linha de raciocínio mais atraente.

Ao fim, Marta Barbosa Stephens opta por arrefecer essa fervura de exílio e rancores numa transcendência espiritual de autoconhecimento, virando o foco narrativo de quem é contado para quem conta. É um efeito inusitado e interessante, levando a um entendimento quase filosófico de que o olhar sobre o outro é também um olhar sobre si.

Em A paixão segundo G.H., a protagonista inicia sua viagem existencial depois de comer a matéria branca expelida pela barata esmagada. Já em Desamores da portuguesa, o destino se desanuvia a partir do momento em que, de certa forma, a barata come a narradora.

 

 

***

 

 

Livro: Desamores da portuguesa

Editora: Ímã Editorial

Avaliação: Bom

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