Contos para ler em três minutos

Mesmo com as editoras atentas à importância do projeto gráfico, ainda é raro a capa de um livro transcender seu mero papel ilustrativo e funcionar como uma extensão representativa do conteúdo. Recentemente, Tupinilândia, romance de Samir Machado de Machado, entrou para esse rol de raridades. E agora é a vez de Algazarra, do mato-grossense Santiago Santos, uma seleta de contos que diz a que vem, sem que se precise adentrar a leitura.

Está tudo ali, detalhado na ilustração da porto-riquenha Ericka Lugo. Uma composição cartunesca, na qual uma série de figuras povoam uma paisagem cortada por um sinuoso rio e preenchida com casas, a franja de uma mata, um cemitério, árvores, uma ilhota, um avião, uma ambulância, um milharal.

Nesse espaço, que abrange a capa e a contracapa, caubóis duelam, um homem navega num bote, uma adolescente espera a chuva passar, uma grávida simplesmente espera, estudantes caminham, um índio foge de uma onça, uma criatura reptiliana se esgueira, crianças brincam, um zumbi emerge da terra, etc e etc.

São microcenas que não têm qualquer relação entre si, embora estabeleçam uma ideia de dinamismo, de volatilidade. Um retrato perfeito da antologia, que não se presta a qualquer busca de coesão, construindo um amplo painel movediço e polifônico no qual temas, gêneros e formas se alternam de uma narrativa a outra.

São 50, ao total, produtos de um desafio de compor prosas ficcionais com o uso de 300 a 1000 palavras. Não chegam a se configurar minicontos, e sim contos rápidos, para ler em poucos minutos, em qualquer a ordem. Há uma despretensão aqui, e isso não é mau. Nem todo livro precisa falhar na tentativa de salvar a literatura brasileira.

O valor de entretenimento se sobressai, oferecendo ao leitor um cardápio de breves histórias, drops literários que transitam do fantástico ao fluxo de memórias, do drama policialesco à ficção científica. Naturalmente, em razão do sortimento, alguns contos se destacam mais que outros; todavia o saldo é positivo.

Isso se dá, sobretudo, porque o autor descobre uma maneira de se adequar a um gênero, ao invés de encaixar tal gênero a um padrão pessoal de escrita. A dicção varia, o estilo e a estrutura se renovam constantemente. Fica parecendo uma reunião de vários autores, no entanto a falta de identidade é compensada pela boa variedade técnica.

Os enredos também são criativos e, apesar de compressos (ou exatamente por isso), bem executados. Referências e influências se manifestam de cabo a rabo. Cinema, música, literatura, etc e etc, da forma mais explícita ao subtexto. Certas narrativas parecem uma versão resumida de um roteiro de Além da imaginação (ah, ok, millennials: Black Mirror), outras soam como uma fabulação sobre uma crônica do cotidiano.

Lembram também as antigas pulp fictions, aqueles magazines de papel barato que traziam uma seleta de histórias de detetives, viagens espaciais e terror. Em tempo, Nelson Rodrigues, sob o pseudônimo de Suzana Flag, escreveu ficção de polpa, nos anos 40, para ganhar uns trocados. Meu destino é pecar, era o nome do folhetim.

Santiago Santos não aposta no melodrama, mas, de resto, pode-se encontrar de tudo um pouco em seus contos. Um livro possível de ser lido numa sentada, na sequência sugerida, ou por dias a fio, de maneira randômica, feito um folhetim dos tempos modernos movido pela desordem, pelo alvoroço, um vozerio, uma baderna, uma algazarra.

 

 

***

 

 

Livro: Algazarra

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

2 comentários sobre “Contos para ler em três minutos

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