Bastidores de uma campanha política

Inacreditáveis cinquenta mil reais é quantia paga ao publicitário Alexandre Darlan (nem ele acredita) para montar a campanha do candidato da oposição, no pleito para a prefeitura de Maruma, uma cidadezinha do interior composta basicamente de “bares e igrejas”.

Vindo da Cidade Grande, Darlan tem a missão de eleger o farmacêutico Saul de Bílar Almeida, do PMDB, na disputa contra a reeleição de José João, do PP.

Sua primeira decisão é se estabelecer na cidade. Pensa em algo bem barato – uma quitinete, talvez – para não comprometer o dinheiro, pois a ideia é sumir dali o mais rápido possível quando tudo acabar. Mas logo percebe que a preocupação financeira não faz qualquer sentido.

Paulão, o líder do partido, seu contratante, acomoda-lhe no melhor hotel da região. Come e bebe de graça. Todos o tratam com deferência e um certo fascínio.

Seu único problema, a princípio, são os vereadores do próprio partido, “uma combinação perigosa de impaciência e ignorância”. Nem mesmo o grupo de oposição se revela pronto para o contra-ataque. Sabe-se das maracutaias que ocorrem na prefeitura, mas o povo se mostra ignorante o suficiente para não cobrar pelos seus direitos básicos.

Para seu alívio, em seu primeiro encontro com Saul, Darlan se depara com um homem cordato e instruído. Conversam sobre as estratégias de campanha, como apontar os problemas e apresentar soluções, até vir à tona uma história distante em que o candidato e seu pai foram providenciais no socorro das vítimas de um avião que caiu na cidade.

De imediato, o publicitário enxerga ali seu grande trunfo, a imagem do herói, porém é censurado mais rápido ainda por Saul, que afasta a ideia de um jeito estranho. Há algo ali, mas Darlan prefere não insistir, de modo que decidem provocar um debate entre os candidatos numa data bem próxima da eleição.

Mais tarde, ao caminhar de volta ao hotel, tomando um caminho mais longo para se familiarizar ao lugar, ele conta a quantidade de buracos nas ruas sem asfalto e tem uma ideia. Telefona para Paulão e manda que finque em cada buraco uma bandeira com a cor laranja do partido adversário.

Aí está o mote (e o sentido literal e o metafórico) de Os buracos, de Giovanni Arceno. Em seu segundo romance, o autor catarinense se vale de um tom documental, para explorar os bastidores de uma campanha política através do relato do forasteiro que vai se compondo e se desmontando a partir do que apreende no curso de sua estada.

Separada por dias, que abrangem o período de dois meses, a narrativa combina processo de ambientação e pertencimento à operação de técnicas para se construir a persona de um candidato e transformá-la numa figura sedutora aos olhos alheios. A postura, a fala, o discurso, o convencimento.

Neste ponto, Arceno se sai genuinamente bem, incorporando um manual de marketing político ao plano ficcional sem derrapar no didatismo ou (menos ainda) no ideologismo. Ainda que faça referência direta ao documentário Entreatos, de João Moreira Salles, sobre os bastidores da campanha presidencial de Lula em 2002 (citando, inclusive, o marqueteiro Duda Mendonça), a trama é bem contida na sequência de seus acontecimentos, livre de qualquer bandeira que penda para a direita ou para a esquerda.

Há a crítica social (naturalmente), mas esta se refere a um mecanismo muito maior. A corrupção que se tornou indissociável à política. O toma-lá-dá-cá, as falcatruas, o caixa 2, o uso da máquina pública para o benefício de poucos, as obras oportunistas que visam coletar votos.

Pelos olhos do narrador, enxergamos o resultado do mau uso do dinheiro público ilustrado na pobreza da paisagem, na falta generalizada de educação e de cultura, na população de morre porque o sistema de saúde não funciona. Maruma é o retrato do Brasil; ou o Brasil por completo.

Darlan também está longe de ser santo, e se aproveita das falhas da gestão do opositor para preparar o arsenal de seu candidato. A certa altura, quando presencia uma senhora miserável e doente chorar por não receber os remédios cedidos pela prefeitura, ele vai ao carro e cata uma câmera, com o intuito de registrar o depoimento e utilizá-lo como material de campanha. Parece cruel, mas, assim como os médicos, os publicitários perdem a sensibilidade com o tempo, argumenta.

Com isso, o romance recorre a arquétipos para configurar esse trânsito de ações e reações no qual a imoralidade é uma conduta usual para se atingir uma única meta: dissuadir alguém a acreditar numa promessa em que não há qualquer garantia de cumprimento.

Publicidade e política são muito parecidas. Um senador, presidente, deputado, é como se fossem um produto oferecido por alguém. “Vote neste” equivale a “Compre esse”. E como conheço o suficiente sobre propaganda, sei que tudo não passa de alguém tentando ludibriar alguém, explica.

No terço final, o narrador onisciente é substituído pela altercação dos candidatos no formato de debate. É um efeito interessante (e a mudança tem um propósito), no entanto põe de lado a perspectiva da descoberta que engajava, até então, o leitor a acompanhar as estratégias e os conflitos internos do protagonista.

Há ainda a questão de ser um enredo rigorosamente funcional, expondo o desafio de Darlan na primeira página e se ocupando de desenvolvê-lo até o final. Não faria mal à trama, ora em vez, desviar para caminhos paralelos e explorar outras relações do personagem, como fez, por exemplo, a paulista Patrícia Melo, em Ladrão de cadáveres.

A boa estrutura e a força simbólica, no entanto, compensam esses desajustes, colocando Os buracos na pauta do dia, desses tempos eleitorais. Um romance pragmático que expõe os fios desse mecanismo institucionalizado de manipulação, abarcando de uma minúscula cidade às raias continentais de um país.

 

 

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Livro: Os buracos

Editora: e-galáxia

Avaliação: Bom

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