Muito além do sol na cabeça

Meses atrás, a literatura brasileira foi tomada de assalto por um “fenômeno” sobrevindo das favelas cariocas. O sol na cabeça, estreia de Geovani Martins, chegou às prateleiras catapultado por um dos maiores grupos editoriais do país e a chancela de nomes de peso, a exemplo de Chico Buarque, que declarou ter “ficado chapado”.

À parte o mérito da qualidade (até porque não li o livro; apenas dois contos disponibilizados no site da editora), o apelo comercial-literário-publicitário estava na habilidade com que o jovem autor reproduzia a dicção desses ambientes marginalizados para retratar a realidade desses mesmos ambientes marginalizados, através da perspectiva de quem convive com a violência, a discriminação racial e a social, e a linha tênue que separa a criminalidade e a criminação.

Bem, nesse quesito não há qualquer novidade. A fala como veículo de apreensão do ethos de um recorte geográfico é, de longa data, uma das características da literatura regionalista. Nos anos 1970, Rubem Fonseca peitou a ditadura militar e deu voz aos seus “miseráveis sem dentes” e demais vetores marginalizados da violência urbana, com (o ainda impactante) Feliz ano novo. Na dramaturgia, Plínio Marcos levava aos palcos o vernáculo dos excluídos, dos bestiais, dos que viviam perdidos em noites sujas.

Mais recente, autores como Ferrez, Sacolinha e a poeta Bruna Mitrano abastecem suas ficções com a realidade das periferias, elegendo narradores que tratam o texto a partir da linguagem informal, caracterizada pelo dialeto de uma coletividade em particular.

De modo que o livro de Geovani Martins – bem avaliado ou não – faz parte de um contexto preestabelecido, que acaba de ganhar um integrante de alto nível. Com os contos de Perifobia, a paulistana Lilia Guerra dá voz aos agentes marginalizados da malha social, retratando duras vivências através da ótica feminina.

São personagens que convivem diariamente com a violência e/ou têm a memória assaltada por perdas, porém não são executores de crime. O foco desvia do escopo social e se fixa no drama humano, nas relações interpessoais situadas num ambiente marcado pela desigualdade entre classes, pela injustiça social, por laços familiares e afetivos.

A vida ao rés do chão, como bem definiu Sacolinha. Quando não há certeza ou segurança quanto ao futuro e, a qualquer momento, abruptamente, a tragédia abraça a tudo, transformando o difícil no incontornável. Um destino moldado a baques.

É o caso de “Artigos de luxo”, sobre uma mãe solteira que se desdobra para alimentar os filhos, pegando comida a crédito no armazém local. O proprietário é um indivíduo bronco e irascível, que considera alguns itens “artigos de luxo”, daí não permite o fiado. Uma situação humilhante, que resulta numa calamidade.

Um dos méritos de Lilia Guerra é conformar pessoas nesse espaço facilmente dado a estereótipos. São todos muito verdadeiros, com personalidades ambíguas, regidas por necessidades e emoções das mais ordinárias. É impossível não se pegar, durante a literatura, imaginando alguém que você conheça ou viu em algum lugar.

A ficção se estabelece um conduto para que essas histórias aconteçam, num tipo de processo onde se captura o vivido e o reconta. Assemelha-se à narrações de experiências reais com as quais a autora se conecta por fazer parte do ambiente onde ocorreram e ser tocada por elas de algum modo.

O excelente “Entre roseiras e jabutis” é o relato de uma vida, repleto de ódio reprimido, autodescoberta, libertação, (in)fidelidade e vingança. Uma menina abandonada pela mãe cresce na casa dos patrões de sua avó. Ali convive com humilhações, ataques de sujeição e tentativas de abuso sexual. À medida que adolesce – e naturalmente sua avó fica idosa e incapaz de cumprir as tarefas domésticas – ela reverte esse status quo, utilizando o mesmo instrumento de manipulação do qual sempre foi vítima.

Lilia Guerra não escreve a partir da visão de quem observa de fora para dentro, e sim de dentro para dentro, desmantelando uma ideia de hierarquia que a permite enxergar o que está fora. Pode ser por meio de uma diarista que dá o troco na patroa escrota ou de uma velha empregada que consegue sua casa e “a alforria dos patrões”.

São gestos mínimos, desejos baratos, contudo de enorme significância para quem tem pouco, nada ou é impedido de ter. Ao explorar esse conflito, a autora cria camadas para circunstâncias que, embora pareçam tão óbvias e consequenciais, segredam elementos que as dão complexidade e proporção.

Não se trata de justificar um delito, mas de fornecer todo uma panorama que ponha o ato sob o prisma do debate.

Do meio para o fim, muitas narrativas dão continuidade a contos anteriores, cruzando personagens e instituindo uma unidade que possibilita delimitar um espaço de convivência, que nada mais é que a periferia, esse universo tão comum e ao mesmo distinto em seus signos, seus mitos, seus espantos, sua fala.

Perifobia, ao contrário do que sugere o nome, não cria uma zona de tiroteios, de terrores, mas um circuito de histórias de gente que ama, que sofre, que sonha, que se desencanta, que nasce e que morre, caminhando para muito além do sol na cabeça; em busca de um lugar ao sol.

 

 

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Livro: Perifobia

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

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