O fantástico na ficção nordestina

Em Homens e outros animais fabulosos, o pernambucano João Paulo Parisio volta ao conto, depois de uma incursão pela poesia. Pela forma e pelo conteúdo dessas 10 novas narrativas, fica claro que o autor delegou, ao seu processo de escrita, a incidência de um gênero sobre o outro.

Ainda que em prosa, seus textos são marcados por uma alta voltagem poética, em que cada frase é tratada com o mesmo apuro de um verso. O resultado são tramas fortemente imagéticas, que enaltecem um imaginário particular através da linguagem erudita, arcaica, própria de um regionalismo derramado do passado.

Evoca a ficção nordestina de Guimarães Rosa, Ariano Suassuna, Rachel de Queiroz e João Cabral de Melo Neto. Um fazer literário que descerra um maravilhamento no uso de um vernáculo que traduz o drama do homem comum que cruza o cotidiano a partir de uma experiência de sentidos e de transitoriedades.

De uma forma ou de outra, todos caminhos estão sob os signos da vida e da morte. O espaço concreto, dos conflitos humanos, da miséria e da violência terrestre, e também os planos enevoados por uma textura onírica, um circuito invadido por um tipo de fantástico barroco, estufado de mistérios e assombramentos.

É o caso de “Boneca-de-Pano”, conto que abre o livro. No biombo de um estranhamento, temos a história de uma menina formada por remendos, que se vê forçada a trabalhar numa cooperativa de costura para angariar algum tipo de sustento contra toda a espécie de pobreza. Certo dia, enquanto cruza a tarde montada em seu triciclo, avista um homem pelo qual se apaixona perdidamente. O escolhido, no entanto, está longe de ser um príncipe encantado.

Parisio conduz seu enredo dentro de uma perspectiva lúdica, que vai se deteriorando à medida que se direciona para o fim. De certa maneira, é um expediente que se repete. Por dentro de toda camada lírica, de características potentes e magnéticas, há sempre um elemento central de derrota, de diferentes graus de tragédia.

“Apólogo da identidade” dá voz a uma folha de papel amarelada, esquecida dentro de uma gaveta, que conta o passar do tempo pela rotina dos ataques de baratas, enquanto aguarda que se escreva nela. É uma deferência ao ofício da escrita, que não foca na arte, mas no veículo. Um texto inusitado e divertido.

“Bio Boi” e “A idade da revelação” versam, cada um a rigor de seu itinerário, sobre ruptura e reconstrução. No primeiro, o esteriótipo do sertanejo machão cai por terra, a partir de um vaivém de traições que resulta num novo sentido de paternidade. Ao passo que o segundo conto (um dos melhores), trata da descoberta de um fator hereditário que está ligado a um estado de transformação animalesca. Aqui, é interessante notar como os dispositivos temáticos cambiam sem alterar o aspecto narrativo.

A escrita de Parisio é conduzida por ecos de ancestralidade literária, que lhe possibilita criar o novo ao mesmo tempo que reverenciar o passado. “Clepsidra”, nesse contexto, é exemplar. Dedicado a Ariano Suassuna, o texto é dividido em fragmentos com ares de devaneio, encontrando ressonância na poesia que pode ser tudo, até alucinação.

Para o fim, o autor empreende diálogos com Kafka e Poe, flertando com o visionarismo da ficção científica e a narrativa de enigma, mas (outra vez) sem abandonar esse centro que lhe atribui identidade. Desgosto da mania de separar a tudo em pastas de classificações, todavia não seria leviano dizer que se trata de um neo-regionalismo.

Mesmo que não se ocupe do drama do retirante que busca uma vida longe da fome e da seca, a raiz da temática nordestina segue viva em Homens e outros animais fabulosos, conferindo a seus contos um caráter singular de fala, de território, de tradição e, sobretudo, de poesia.

 

 

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Livro: Homens e outros animais fabulosos

Editora: Patuá

Avaliação: Bom

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