O reino da infância em pedaços

Em outubro de 2017, o Brasil foi tomado de assalto por um dos casos mais abomináveis de sua crônica policial.

Na Colônia Agrícola Major César de Oliveira, localizada no estado do Piauí, agentes penitenciários encontraram um menino de 13 anos escondido debaixo da cama de um preso acusado de pedofilia e estupro de vulnerável. Se não bastasse o absurdo da situação, logo se descobriu que foram os próprios pais da criança que a deixou ali para ser violentada, em troca de comida e uma quantia em dinheiro.

Sandra Godinho toma emprestado elementos dessa história como ponto de partida para Orelha lavada, infância roubada, uma reunião de breves narrativas que, por conta das circunstâncias e da repetição de personagens, tem um sentido romanesco, embora a classificação ainda seja inexata.

Trata-se de um experimento narrativo e visual, que transita entre alguns gêneros, tendo o conceito da infância como força simbólica. A começar obviamente pelo título e pela condução do enredo, passando pelo uso de citações, versos de cantigas e textos (alguns de aspecto poético) contidos em desenhos de bola, pipa, balão, barquinho.

A história central acompanha Marcelino, um menino levado pelos pais a uma cadeia para ser sodomizado por um preso. Depois de descoberto o crime, ele é afastado de casa e transferido para um abrigo social. Pouco tempo depois, foge e começa a cometer pequenos delitos, na companhia de outros menores de rua. Uma escola de violência que, num espaço urbano marcado pela miséria e pela corrupção, vai coroá-lo chefe do crime.

Em torno desse eixo, orbitam narrativas sobre o passado e o presente dos integrantes da gangue, o interesse amoroso de Marcelino e a sua rival. Godinho movimenta esses fragmentos de maneira frenética e esgarçada, deixando tudo confuso e lacunoso. A falta de um fio condutor atrapalha. Resulta num andamento derrapante.

A autora demostra uma preocupação contínua em delinear o conceito do seu livro, influenciando de maneira negativa na apreensão de seus personagens. Todos são vítimas e produtos de um ambiente de crueldades, abusos e perigos, e a narrativa aposta nessa construção pelo impacto das palavras.

Desse modo, a escrita ocorre em intervalos de contundências, no encadeamento de cenas que, na busca de causar uma impressão cada vez mais forte, acabam por voltar a dizer o mesmo e amortecer o peso do que veio antes. Há sempre a atração para se reiterar o conflito entre o reino infantil e o da maldade, mas sem desenvolvê-lo devidamente.

Dois contrapontos bem oportunos são as seletas de contos Receita para se fazer um monstro, de Mário Rodrigues, e Larva, de Verena Cavalcante, que trabalham também com essa mesma ideia de infiltração da perversidade no mundo da criança. Chama atenção como a (de)formação e dimensão psicológica dos personagens desses livros se dão a partir de suas ações, de consequências dessas ações ou de influências externas que conformam um circuito de acontecimentos, de forma concreta ou imaterial.

Falta esse estofo para os textos de Godinho, esse fundo de verossimilhança que deve existir em todo o nível de invenção.

O que acaba repercutindo na linguagem, truncada, quebrada em demasia e norteada por associações rasas, metáforas ruins e diálogos nada críveis, sempre na iminência de uma frase de efeito, um jogo de palavras. E, outra vez, o resultado é o enfraquecimento do conteúdo, refém dessa ambição de privilegiar a forma.

Orelha lavada, infância roubada se ocupa de temas pesados e de uma realidade corrompida, contudo carece de um tratamento mais habilidoso e maduro do texto, aproximando-o da pieguice e de uma ideia de paródia que, em alguns momentos, é evocada pela autora de forma intencional.

 

 

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Livro: Orelha lavada, infância roubada

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Ruim

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