O inferno das próprias consequências

“Obsessão” está entre as primeiras histórias escritas por Clarice Lispector. Não faz parte do rol de seus contos famosos, mas é um dos melhores. Trata-se do relato íntimo de uma mulher que, na distância dos fatos consumados, revisa o caso adúltero que a abateu, ao mesmo tempo que esmiúça o conceito de família na sociedade cristã-moralista.

As pessoas que me cercavam moviam-se tranquilas, a testa lisa sem preocupações, num círculo onde o hábito há muito alargara caminhos certos, onde os fatos explicavam-se razoavelmente por causas visíveis e os mais extraordinários se ligavam, não por misticismo mas por comodismo, a Deus. Os únicos acontecimentos capazes de perturbar suas almas eram o nascimento, o casamento, a morte e os estados a eles contínuos, analisa a narradora.

Em Todos os abismos convidam para um mergulho, Cinthia Kriemler se utiliza desses mesmos postos de transição (nascimento, casamento, morte) para demarcar a travessia de sua protagonista pelo inferno de próprias consequências. Em seu primeiro romance, a escritora carioca radicada em Brasília dá vida a uma mulher encerrada num processo contumaz de decadência, tornando-se reflexo e agente de uma sociedade corrupta, amoral, abusiva, que profana a ideia de infância, de família, de integridade feminina.

É uma narrativa visceral, dotada de uma carga dramática pesadíssima, na qual o imaginário toma consciência do real em seus níveis mais sórdidos de verossimilhança.

Beatriz vive a rotina do luto, depois que sua filha adolescente se mata, vencida pela depressão. Como válvula de escape para o sofrimento e a culpa, ela sai à rua para fazer sexo com estranhos, da maneira mais promíscua e autopunitiva possível. Naturalmente, tal comportamento detona seu casamento com Bernardo, um marido de fidelidade canina e pai dedicado, viralizando-se por sua rede de relações familiares e profissionais.

Beatriz trabalha numa Secretaria de Assistência Social, lidando, dia após dia, com casos de violência doméstica, envolvendo agressões físicas e psicológicas contra mulheres e crianças, pedofilia, estupros, prostituição de menores. Uma realidade que combate com afinco e revolta, embora patrocine atividades semelhantes em sua privacidade, estabelecendo um círculo vicioso de crueldades que incomoda e sufoca com o mesmo grau de impactação.

Isso se dá, especialmente, por conta da maneira que Kriemler molda a personalidade de sua protagonista. Não se trata de uma defensora da justiça, que entrona o homem como causador de todos os males do mundo, mas uma voz lúcida, severa e condenatória também para a mulher que se faz de cega diante dos abusos contra os filhos, que não denuncia o marido para preservar uma encenação de família, que prefere o sexo (o pau duro) em detrimento à autoestima. E criam-se, assim, novos paradoxos.

Todos os abismos… evolui na soma de seus paradoxos e reflexos, estruturando-se a partir dos acessos a dois planos narrativos – a história da vida pessoal e a história do trabalho -, que se cruzam de forma subjacente, largando e voltando a cenas e assuntos de modo a gerar outros apesar da impossibilidade de resolução.

Funciona como um vício, uma obsessão. O sexo que nunca sacia ou cura, o passado que nunca vai embora e os abusos que se repetem num mecanismo de retroalimentação, convertendo vítima em futuro algoz dentro de uma zona difusa onde a lei e a verdade não se respeitam, tal qual o corpo e a mente.

Nesse caso, esgarça-se do espaço da ficção a intenção da autora em exercer um papel social. Das vítimas que ocupam as páginas, com suas dores, misérias e fantasmas, ecoam gritos de denúncia acerca de um dos vetores da violência cujos registros crescem de maneira exponencial no Brasil (a doméstica, associada ao abuso infantil e/ou ao feminicídio) e da necessidade de entender a depressão como a doença que é, grave e fatal.

Trafegar por esse linha tão tênue entre fato e fabulação é o que faz de Beatriz uma personagem assombrosamente humana; amargurada, quebrada por dentro, que causa empatia ao mesmo tempo que repulsa. Para o fim do livro, ela se vê diante de uma oportunidade que, por vias tortas, pode representar um recomeço, mas refuta o caminho, pois entende que não há mais saída para si, que está numa viagem sem volta. E entender, a esse nível, sua protagonista faz de Kriemler uma ótima autora.

No conto de Clarice, quando se vê nas cercanias da loucura, a narradora se dá conta de que, a partir daquele momento, saberia “qualquer coisa sobre os que procuram sentir para se saberem vivos”. A narradora de Todos os abismos convidam para um mergulho age exatamente ao contrário, sentindo, machucando-se, para se saber morta. Não consegue. E contamina a todos a sua volta com a experiência terrível de estar viva.

 

 

***

 

 

Livro: Todos os abismos convidam para um mergulho

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

Um comentário sobre “O inferno das próprias consequências

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s