Um estudo venoso de personagem

Desolado após o fim de seu terceiro casamento, Jofre mergulha numa fase de degradação física, mental e moral.

Isola-se num apartamento, onde passa os dias se embriagando e se alimentando de comida congelada, numa guerra de livros e louças sujas por todos os cantos.

Até que, navegando pela internet, decide contratar os serviços sexuais de Kali. Em seguida, contrata uma diarista.

Se por um lado ele se livra do lixo, por outro não consegue tirar a imagem da ex-esposa da cabeça e brocha.

Mas, por um motivo que ainda desconhece, fica interessado pela prostituta e retorna a ligar para ela, chamando-a para passar as festas de fim de ano em seu apartamento.

Kali recusa a princípio, argumentando que sempre passa o Natal sozinha com a filha. Jofre, então, oferece uma grana alta, e configura-se uma família postiça de uma hora.

Esse é o ponto de partida de Paralisia, estreia na ficção do jornalista André Nigri. O romance, contudo, não percorre um andamento convencional, armando-se de uma elasticidade que se denota na passagem do tempo e, sobretudo, na articulação do formato narrativo.

Há alguns aqui: narração em primeira, em segunda e em terceira pessoa, diário, e-mail, excerto guardado em excerto, testemunho. Dentro daquilo que se apega o enredo, alguns funcionam; outros, menos; e outros funcionam e não funcionam ao mesmo tempo.

Paralisia é, de fato, um estudo de personagem. Através desses fragmentos (por vezes sobremaneira digressivos), o autor constrói e ilustra a personalidade de seu protagonista, dando-lhe dimensão psicológica para confrontar, no futuro, alguém que ele poderia ter se transformado, caso não tivesse dinheiro, caso não tivesse educação.

Um bom exemplo está nos e-mails enviados e nos não enviados para a ex-esposa. Os insultos e o rancor em contraste aos pedidos de reconciliação e às lembranças boas desenham um homem instável, sem rumo, que, apesar de inteligente, enquadra as mulheres de maneira submissa, libidinosa, invariavelmente como objetos sexuais.

Tal comportamento é elucidado no capítulo intitulado “Eles”, em que uma série de personagens do passado ganham voz.

Por meio de depoimentos em estilos variados, a mãe de Jofre (refém de um segredo, em virtude do qual não consegue oferecer afeto ao filho), o pai (advogado de renome, defensor de políticos corruptos, e adúltero), a amante do pai e suas duas primeiras esposas detalham momentos-chave de suas histórias que, de maneira direta e/ou indireta (no melhor exemplo behaviorista), fornecerão rastos para se chegar ao protagonista e a seus demônios.

É um recurso muito bem pensado, e funcional, para estabelecer aspectos identitários. O caso é que, retirados do livro, tais textos não fariam qualquer falta, sobretudo quando se adentra o segmento final, que faz conexão imediata com a primeira parte.

São narrativas autossuficientes, bem escritas, mas que não dão musculatura ao livro. O problema está no agrupamento. Certamente se fossem distribuídas de forma mais orgânica, pelos capítulos, serviriam como relances temporais que, pouco a pouco, de modo furtivo, mostrariam suas repercussões no presente.

O segmento final (sobre o qual se deve falar muito pouco, para não estragar a experiência da leitura) transporta o protagonista para um cenário completamente distinto, ainda que sua nova vida incorra em dilemas que parecem lhe perseguir feito sina. A masculinidade em riste agora se mantém na redoma do desejo reprimido, pois há um sentido maior de proteção em seus dogmas atualizados, embatendo a devassidão em prol de uma ideia de paternidade.

Nigri seleciona seus temas e os desenvolvem com atento até as últimas páginas; o que faz com que o romance não dependa de um fio condutor óbvio, recorrendo aos mesmos assuntos para dar movimento à trama. Isso se espelha também numa segunda camada, na qual os livros mencionados ou lidos pelos personagens emprestam a informação de seus enredos e até trechos de suas narrativas para a construção de determinadas passagens.

Não se trata somente de intertextos, e sim do elogio às influências, quase uma reverência. Durante a leitura, o desconhecimento não atrapalha. Todavia fica mais saboroso saber sobre A caixa preta, de Amós Oz, lendo um e-mail motivado por uma relação amorosa desfeita.

O livro nem sempre é apenas aquilo que está no livro, do mesmo modo que uma história nem sempre é apenas a aventura de sua trama. O personagem pode ser o foco, tornando tudo ao seu redor difuso. Paralisia posiciona seu protagonista em proscênio, constituindo um exercício interessante de escrita.

 

 

***

 

 

Livro: Paralisia

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

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