As coisas impossíveis de nomear

Um filho visita a mãe depois de um longo tempo. À medida que compartilha de seu cotidiano e se reconhece na velha casa da infância, escorrega lentamente para o plano das lembranças e das subjetividades.

Esse é o mote de Perla, novela de natureza autobiográfica do diretor de cinema, ator e escritor argentino Roberto Videla. Um enredo delineado pela simplicidade, de fundo doméstico, mas que contém uma carga dramática e uma fulgurosidade de escrita grandiosas.

É uma declaração de amor, acima de tudo. Uma manifestação de afetividade de quem se enreda no outro tão vigorosa e comovente, que se encontra na mesma condição de alteridade de Carta a D., do filósofo austríaco André Gorz.

Videla tem um texto elegante, intuitivamente poético, que modula o tempo e o espaço para cobrir a tudo com a atmosfera porosa dos sonhos e da memória antiga. Tudo parte do olhar que reflete para dentro, buscando na história mental desse narrador/alter-ego as partes que faltam para compreender e deixar seguir o presente.

Dei um abraço muito forte nela, que se surpreendeu e talvez tenha entendido o que se passava em mim, embora eu não tenha dito nada. As coisas mais importantes são impossíveis de nomear. Há algo que quero dizer agora a Perla, a Pili, à minha mãe, algo que não direi a ela, porque as palavras são tão simples que não se podem enfrentar nem segurar, e permanecem ocultar na boca, no escuro.

Perla, Pili, Perlita, mãe, é uma senhora de noventa anos, lúcida e ativa. Mora sozinha, gosta de novelas e de filmes de ação, e de sair com as amigas para comer pizza. O narrador, seu filho mais velho, um sexagenário solteirão, tenta lidar com a mulher fisicamente frágil de agora, embora com a mesma energia presencial de quando era menino.

Desse modo, eles avançam e recuam no tempo, travando discussões triviais e interagindo no passado da infância, marcado por momentos de dissidências e de contentamentos. Há passagens realmente tocantes e divertidas, a exemplo de um capítulo inteiro dedicado a uma brincadeira no banho apelidada de tempestade.

Tudo se passa no curso de um dia. E, à medida que o crepúsculo dá lugar à noite, a incidência da finitude vai revelando camadas que tratam de conflitos autoexistenciais, de aceitação, da procura do sentido contido no liame maternal e da certeza de que todo legado, de certa forma, é também a transmissão da vida.

Perla é, enfim, uma narrativa de movimento, a condução ao encontro de alguém que representa algo que não se pode qualificar, um sentimento sem nome. Videla escreve muito mais que um livro sobre um filho que tenta se relacionar com a mãe, mas um livro sobre um filho que tenta se relacionar consigo, guiado por uma ideia de mãe.

É isso. Sou o filho. Teria que obedecer as minhas próprias ordens, mas obedeço a ela, apesar da munha idade, da minha vida, de toda a lógica. Ou melhor, é lógico, é isso mesmo. Na realidade ela intui ou cria meu verdadeiro desejo: eu nem sequer queria sair. É a casa que está chamando, o lugar que protege e anula, que espera no escuro, cheio de abrigos, ladrões e alarmes. Entramos.

Como é raro a um leitor ser permitido entrar num livro tão singelo e profundo, à beira de quem conta para registrar, guardar e se despedir.

 

 

***

 

 

Livro: Perla

Editora: Papéis Selvagens

Avaliação: Excelente

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3 comentários sobre “As coisas impossíveis de nomear

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