Abaixo a ditadura das crianças!

Confesso que, como pai de uma menina de oito anos, não é nada confortável lidar com as palavras de Lina Meruane: Não escrevo a favor do infanticídio, por mais que o recém-nascido do vizinho ao lado interrompa meu sono, por mais que as crianças do andar de cima sapateiem sobre meu teto e meu trabalho diurno.

À medida que se avança a leitura de Contra os filhos, porém, fica claro que a escritora chilena arma uma diatribe; um texto de caráter ensaísta irradiado por uma ideia crítica severa e mordaz, com vistas a atacar a noção moderna de maternidade e o estado que chama de “império dos filhos”.

Um discurso declaradamente feminista, que faz pensar: por que um homem vai se meter em escrever sobre um ensaio que reprova os modelos de maternidade e de família?

Bem, primeiro porque sou um leitor – e isso me exime de qualquer preconceito. Segundo, porque sou um pai extremamente presente e faço parte – de maneira direta ou indireta, voluntária ou involuntária – desse universo particular sobre o qual Meruane se debruça com mira de guerrilha.

Há um radicalismo orientando suas considerações, dos quais decantam um triz de humor-quase-ironia. A autora não se esquiva da polêmica, mas o faz de maneira argumentativa, estimulando um debate. Ora em vez, a escrita se desloca do monólogo, dirigindo-se diretamente ao leitor.

E, como um bom – e maduro – diálogo, há coisas para se concordar e para se discordar aqui. Sobretudo, na primeira parte; que é uma pedrada!

Meruane condena “a máquina reprodutora que cospe filhos aos montes”; as crianças-tiranas e seus progenitores. Um tipo de pais que se comprometem a colaborar dentro e fora de casa, mas são incapazes de censurar seus filhos rebeldes, que não oferecem o mínimo de respeito a paz alheia.

É contra os filhos que redijo essas páginas. Contra o lugar que os filhos foram ocupando em nosso imaginário coletivo desde que se retiraram “oficialmente” de seus postos de trabalho na cidade e no campo e inauguraram de século XX vestida de inocência, mas investida de plenos poderes no espaço doméstico.

Prestem atenção em que como a frase sugere a defesa do trabalho infantil – e a condução é mesmo a do perigo -, mas a linha de raciocínio está num plano mais elevado de inteligência. Discute-se o efeito do filho na relação da mulher com o espaço profissional e o familiar, a postura à ladainha da sociedade na cobrança da gravidez, o poço emocional e a dureza em se multiplicar em várias para se suceder numa única missão, que deveria ser de fato uma escolha, e não um processo natural – ou uma sina.

Por outro lado, fica difícil concordar com a ideia de que o filho é “um novo subterfúgio para atrair as mulheres de volta para casa”, e que, na ocorrência de um divórcio, a lei que garante o direito da mãe de ter prioridade na guarda dos filhos é, na verdade, “um castigo” imposto à mulher.

Como disse, é uma militância que espeta, tem garras e dentes, mas que permite as divergências. E essas são as minhas.

A segunda e a terceira parte – “Revoluções guilhotinadas” e “Rodopios recorrentes” – são retornos no tempo, com o propósito de “fuçar na gestão e na gestação da ideia do filho”. A escrita se substancia de acontecimentos e registros históricos para remontar a luta das mulheres por seus direitos e a conquista de acres na sociedade moderna; e em demonstrar como a obrigação de ser mãe, de ter filhos, de ser a protetora de uma família se contrastam e/ou obliteram ao esforço de emancipação feminina.

A literatura também aparece com força, por meio de intertextos e exemplos. Neste caso, a escritora inglesa Virginia Woolf aparece como uma espécie de musa. Meruane resgata momentos de sua vida e de sua obra para privilegiar a vantagem de não ter filho.

Ela conseguiu um espaço, uma porta para fechar enquanto trabalha (não há crianças em sua casa), observa.

Outras autoras clássicas e contemporâneas são citadas, inclusive as brasileiras Clarice Lispector (Desistiria da literatura. Não tenho dúvidas de que como mãe sou mais importante do que escritora) e Patricia Galvão, a brava Pagu, com seu fascinante Parque Industrial, primeiro romance brasileiro que insere a mulher no ambiente proletário.

Um dos poucos homens que ganham repercussão é o dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, por conta de sua peça A casa das bonecas, na qual a personagem feminina chega ao fim abandonando marido e filhos. Há um fato emblemático – e usado naturalmente para corroborar a tese anti-filial – que ocorreu nos primeiros ensaios para a montagem. Várias atrizes se negavam a pronunciar o monólogo final, pois alegavam que “jamais renunciariam seus filhos”.

Esse é um dos ganchos para a parte dedicada à listagem dos tipos de mães. A autora inicia o capítulo defendendo que “as feministas-pela-igualdade foram contrariadas por mulheres que sentiram que isso de ser ‘iguais’ não era tão convenientes afinal de contas”. Que desse movimento cindiu um grupo ainda mais radical, que não queria ser como os homens, e sim celebrar o chamado feminismo de essência. Adoramos menstruar! Adoramos ficar grávidas!

A partir daí, Meruane cria uma série de rotulações, associando o substantivo “mãe” a uma característica ou qualidade que funcionem como adjetivo. A mãe-de-profissão, a mãe-dividida, a mãe-pela-metade, a mãe-de-filho-único, a mãe-operária, a mãe-deficitária etc.

Elas farão parte de um elenco que, com maior ou melhor gerência, serão artífices nesse plano (nem preciso dizer que, aqui, falível, né?) de abastecer a prole com boa alimentação, casa, vestimenta, educação, saúde, segurança; desviando-a das deficiências que o Estado é incapaz de suplantar.

Então surge a reflexão mais contundente, que se refere à chamada mãe-total ou supermãe. É a mulher que tem um emprego e cuida dos filhos, que “não pede ajudinhas”, que “é capaz de fazer tudo sozinha”, que “não renuncia”. Vista, por muitos, como símbolo de mulher guerreira, de “empoderada”, tem sua imagem totalmente desconstruída por Meruane, que atenta para o risco de ela sempre trabalhar mais e atender às necessidades dos filhos, gerando um inescapável inferno particular.

Não a recrimino, mas a desaprovo: ela está esquecendo que tudo tem limites e que não se trata de demonstrar aos outros o quão fabulosa ela é. Peço que tire o pé do acelerador e observe a situação com a qual se confronta, porque conseguir se sentir superior é apenas uma questão de contingência, não de talento ou de tesão.

Acenando outra vez do quinhão que me cabe e, principalmente, observando minha esposa que tem-um-emprego-e-cuida-da-filha, assumo que cuidar de um filho é uma maratona de cansaço pleno e preocupação; que a chegada de um rebento anula o mundo que, até então, você havia construído. Porém, é também um nascimento de um outro mundo em que, pouco a pouco, você vai se adaptando e, de repente, entre altos e baixos, pega-se envolvido nessa aventura deliciosa.

Como será o futuro? Não sei, ninguém sabe. E aqui a diatribe de Meruane talvez peque, por não conter em si a experiência para além do argumento.

Ainda assim, não há como negar que é um livro bem sucedido no estopim que acende, repleto de opiniões fortes, impossíveis de não provocar tensão e contra-argumento. Uma discussão que transcende as suas páginas, envolvendo pais, mães e – porque não? – a sociedade que precisa debater sua intolerância para o debate.

Exijo que quem levantar a primeira pedra ou a primeira crítica ou esteja prestes a lançar o primeiro xingamento ponha, antes de fazê-lo, uma das mãos sobre o peito e se pergunte seriamente se tudo foi tão simples no que se refere a ter filhos, desafia a autora.

Então, quem responde primeiro?

 

 

***

 

 

Livro: Contra os filhos

Editora: Todavia

Avaliação: Bom

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