História da morte em segredo

Camaradas, de Marcel Vieira, estabelece um ponto de contundência que, mesmo encoberto pelo silêncio (ou exatamente por isso), será o catalisador das transformações que afetarão um circulo de personagens em duas fases de suas vidas.

No começo, cinco amigos que vivem em Alagoa Grande, cidade do interior da Paraíba, no fim dos anos 60. Tibério, que tem deficiência numa perna, Eufrásio, os irmãos Rubens e Múcio, e o intemperado Osvaldo. Adolescentes, experimentando os primeiros ardores da puberdade, numa sociedade regida pela macheza e pela violência.

Certa manhã, o grupo sai para caçar, munido de uma espingarda. (…) eles atravessavam as ruas nessa marcha tranquila, parecendo o regimento imberbe que comanda uma guerra sem sentido, à busca na verdade de capturar nambu, codorna ou rolinha, para depois assar no quintal da casa de Osvaldo.

A incursão, tola e ordinária, acaba por resultar num crime, que os cinco guardam numa aliança de segredo. Os dias correm sem levantar suspeitas ou acusações, ainda que torna-se pública a notícia de um desaparecimento. Os dias correm em sua natureza árida, selvagem e abrasiva, até que um pé humano surge navegando num rio.

Essa primeira parte é reservada para instalar o conflito e desenhar os personagens a partir de suas reações (ou a falta delas) ao fato. Vieira monta os parágrafos através de uma série de fragmentos no qual se focalizam o cotidiano dos cinco amigos, as interações entre si e com uma soma de personagens secundários.

O autor se utiliza de uma técnica narrativa que lembra um movimento de câmera usado no cinema, chamado de travelling. O olhar do narrador se desloca sobre o cenário, no encalço do protagonista da vez, de modo aproximá-lo do leitor ao mesmo tempo que empreender uma distância que possibilite a apreensão do ambiente.

Com isso, o enredo consegue angariar escala psicológica e posicionar cada um dos envolvidos no circuito de ações tomadas para ocultar ou para revelar o pecado cometido.

A certa altura, a narração em terceira pessoa é substituída por um narrador onisciente, e o romance gira uma chave que o insere na metaficção. A força motriz e os agentes da trama continuam os mesmos, mas agora vistos pela perspectiva de alguém que busca um tipo de licença para contar essa história.

Tem início, portanto, a segunda parte, três décadas depois, anunciada pela tragédia produzida pelo rompimento da Barragem de Camará.

O acidente verídico vai se infundir ao espaço da invenção, trazendo à tona o crime dos cinco amigos a partir da relação de um deles com uma personagem que vai representar a realidade. Com isso, o autor executa uma investigação pelo real, guiada por essa voz obstinada que pretende esclarecer o que ocorreu no passado, paralelamente fomentando uma discussão sobre as pequenas e as grandes corrupções que se instalam nos indivíduos e também nos poderes institucionais.

Essa história que me perseguiu é de fato a história de sua própria perseguição. Afinal, nada do que pretendi contar aqui realmente aconteceu, muito embora tudo seja verdade.

Veracidade e imaginação se transfundem em Camaradas, que flerta com gênero, varia o ritmo e a dicção, avança e recua no tempo, digressiona, combina arquivo e história mental, contudo se mantém coeso, pois tem um fio condutor firme, que prende todos seus fragmentos de forma unidirecional.

Um romance sobre injustiça, morte e culpa; a morte sempre como uma nódoa que não se apaga, uma certeza incontestável, e uma culpa. Sim, uma culpa.

 

 

***

 

 

Livro: Camaradas

Editora: Patuá

Avaliação: Muito bom

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