A família enquanto meio infeccioso

A ideia central de Parasito, de Andrea Rangel, é muito interessante: estabelecer um paralelo entre o ciclo de infecção parasitária e o desmoronamento da relação familiar de um cientista que atua exatamente em pesquisas relacionadas à doenças infecciosas.

É um recurso de caráter metafórico que, quando bem utilizado, resulta em literatura de alto nível, a exemplo dos fabulosos contos de Micróbios, do argentino Diego Vecchio. No entanto, não é o que acontece com o romance de estreia da autora carioca.

O protagonista chama-se Romeo, “um dos maiores pesquisadores brasileiros em exercício”, que trabalha no Laboratório de Imuno-Parasitologia da Fiocruz, encabeçando os estudos e as ações de controle endêmico da malária.

É casado com Cecília há tempo demais, e tem certeza/suspeita de que a esposa é uma adultera insaciável, traindo-lhe inclusive com o humilde porteiro do prédio. Ainda é pai de Ricardo e Isadora (um com problema de socialização e outra com problema com drogas), dos quais só recebe críticas negativas e desprezo.

A infância de Romeo também é marcada pelo trauma da orfandade. Em razão da qual, foi criado por uma tia, hoje ranzinza e esclerosada.

Nesse contexto, o cientista cinquentão toca sua rotina, de um lado a outro, sem de fato chegar a lugar nenhum. Está preso ao seu cabedal de neuroses, recendendo comentários machistas, homofóbicos e politicamente incorretos, que mantêm uma clara intenção de irradiar uma crítica que transcenda o espaço ficcional.

Nesse quesito, Rangel acerta, construindo um personagem bem dimensionado em sua personalidade repulsiva, que se nega a aceitar as mudanças dos novos tempos.

Outro ponto de destaque se refere aos diálogos ágeis e mordentes, ainda que esbarrem numa tentativa de impregnar o texto com um tipo de atrabílis, que não tem o efeito concretizado porque fica ressaltando uma característica do personagem continuadamente.

Do mesmo modo que ocorre com os conflitos, que são os mesmos e ficam dando voltas. Portanto a autora decide aumentar a voltagem da condução, acelerando a narrativa numa chave convulsa, premente, que sintoniza o andamento ao estado de consciência do narrador – um artifício até válido, caso só existisse um único narrador.

A certa altura, uma outra voz ganha espaço, dando conta do passado do protagonista e da história obscura sobre seus pais. Assim, o livro lança mão de um outro paralelo, desta vez relacionado à gerência da paternidade e em como somos um reflexo de nossos pais, voluntariamente ou não, gostando ou não.

Isso eleva a carga dramática e, pouco a pouco, vai gerando um anticlímax intencional, de forma chegar a conclusões que só mostram que tudo poderia ser resolvido com a metade do número de páginas. Nem sempre a doença é causada pelo parasita; às vezes pela natureza nociva do hospedeiro.

 

 

***

 

 

Livro: Parasito

Editora: Ímã Editorial

Avaliação: Regular

Um comentário sobre “A família enquanto meio infeccioso

  1. Então, a ideia central de Parasito não é estabelecer um paralelo entre o ciclo de infecção parasitária e o desmoronamento da vida familiar. Esta é a sua ideia central para um livro que outra pessoa escreveu, no caso, eu que aqui escrevo. Fica aqui uma crítica para a sua resenha.

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