Aberto e fascinante está o inferno

Cortázar nem sempre está certo. Em seu ensaio “Alguns aspectos do conto”, o escritor argentino defende que o (bom) contista nunca deve proceder de forma acumulativa, pois a seu favor não corre o tempo, de modo que seu único recurso é ser incisivo, mordente, articulando o enredo em profundidade desde as primeiras frases.

Escreve: Tomem os senhores qualquer grande conto que seja de sua preferência, e analisem a primeira página. Surpreender-me-ia se encontrassem elementos gratuitos, meramente decorativos. Pois bem, Belgicano, aí está o lance de Todo naufrágio é também um lugar de chegada, de Marco Severo.

Seguindo no mesmo ensaio, um pouco antes Cortázar professora sua célebre analogia entre o contista e o boxeador. No livro de Severo, esse paralelo se casa melhor com os gestos de um ilusionista. Há sempre, nas primeiras páginas, a ação ludibriadora do narrador em concentrar a atenção do leitor para um fato circunstancial, enquanto o verdadeiro conflito está sendo executado na surdina, de forma a se revelar feito um truque – uma reviravolta, uma descoberta chocante, um ato de espanto.

Vide o primeiro conto, “Selvagem”. Duas vizinhas, amantes de literatura, decidem montar um clube de leitura no prédio onde moram. Durante as primeiras reuniões, uma delas logo nota a insuportável mania da “amiga” de ficar exaltando as qualidades do filho. A princípio, esse parece ser o conflito. No entanto, este de fato vem à tona a partir da confissão de um plano, cujas consequências macabras apenas serão conhecidas no final.

Não é o caso de cultivar “elementos gratuitos, meramente decorativos”, mas de se criar uma distração que funcione, no decorrer da trama, como um artifício para produzir tensão, interesse, conduzindo a leitura para um final de impacto. Nem sempre o leitor precisa ser nocauteado; roubar-lhe o fôlego já é o suficiente.

No conto seguinte, um menino acha um maço gordo de dinheiro na gaveta de casa e o surrupia para gastar em chocolates. Os efeitos de um gesto tão ordinário (e pueril) se configurará numa escala de terror psicológico e violência explícita, resultando na extinção da pureza da infância.

Aqui há dois pontos bem particulares da literatura de Severo, que se refere à forma e ao conteúdo. Suas narrativas são extensas, de parágrafos longos, e constituem sempre um arco no qual os personagens passam por traumas irreversíveis e convertem esses sofrimentos (morais, físicos) em disparos de violência ou em deformações intelectuais.

Em “Cobrança” – um dos melhores contos escritos há muito tempo -, tal aspecto é bem ilustrativo. Um sujeito, aparentemente boa-praça, tem o hábito de oferecer caronas. A descoberta do porquê (e o que está atrelado ao ato) cabe à interpretação de uma cadeia de infortúnios e de decisões brutais que moldaram sua vida.

Está longe de ser uma fonte de reflexão, mas coloca o que foi extraído da circunstância sob um tipo de julgamento, no qual o leitor se vê imerso numa rede de acontecimentos que ele próprio poderia eventualmente experimentar. Salvo algumas raríssimas exceções, as histórias do autor cearense são calcadas num realismo árido, pulsante, do interior brasileiro, no qual residem personagens muito bem construídos em suas personalidades, fáceis de causar identificação.

São essencialmente humanos, passivos de erros e de acertos, que sofrem tragédias e cometem atrocidades para nos mostrar que não estamos longe disso. Muito menos salvos.

Essa característica de buscar a verossimilhança nos espaços e na natureza dos atores da trama acusa uma influência quase reverencial da ficção do saudoso Antonio Carlos Viana. Todas as obsessões do escritor sergipano – a devassidão na infância, o sexo pela perversão, a maldade humana – são incorporadas no processo de escrita, de modo a serem passes para um universo de inspiração capaz de fornecer elementos para Severo forjar suas ferramentas de precisão e, naturalmente, criar suas próprias obsessões.

Cortázar, o incontestável, afirmou que o homem, que num determinado momento escolhe um tema e faz com ele um conto, será um grande contista se sua escolha contiver a fabulosa abertura do pequeno para o grande, do individual e circunscrito para a essência mesma da condição humana. Fortes e impactantes, os contos de Marco Severo indicam um autor que tem pleno conhecimento da maquinação dessa abertura – tal qual aberto e fascinante está o inferno.

 

 

***

 

 

Livro: Todo naufrágio é também um lugar de chegada

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito Bom

Um comentário sobre “Aberto e fascinante está o inferno

  1. Excelente crítica! Instiga a conhecer o livro. “Desafiar” Cortázar requer fundamento, muito mais do que coragem. E me impressiona os olhares com tantos fundamentos insólitos que você lança às obras. Através de suas resenhas temos tido confiáveis indicações e estimulantes aprendizados. Obrigado!

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