Mistérios que envolvem a ditadura

São Paulo, ano de 1976, período de ditadura militar. No bairro de Vila Maria, um padre protege o irmão, ameaçado pelo cerco da polícia do regime. Valendo-se da boa-fé do delegado local, o pároco arma uma fuga através dos serviços de um sargento do Exército, que promete atravessar o militante para um país vizinho. Um favor que, segundo o militar, seria cobrado depois de sua morte. Apenas reconheça meu corpo, solicita. Dias depois, um carro freia bruscamente em frente à igreja e cospe um cadáver pela porta.

Ali perto vive Regina, adolescente que namora Aristeu, um jovem ligado ao movimento estudantil. Em suas viagens matinais de ônibus para o cursinho, ela conhece um rapaz muito gentil, com quem inicia um flerte e, de um encontro intempestivo, fica grávida. O que Regina não sabe é que o pai de seu futuro filho é um agente do Serviço Secreto da repressão, infiltrado na Faculdade de Economia da USP, a fim de espreitar os passos de um militante chamado Coutinho, companheiro de Aristeu.

O tempo passa. Estamos agora nos anos 1990. João Carlos é um jovem rebelde em função da ausência do pai, que procura preencher esse vazio ora se aproximando de Aristeu, ora do padre local. Quando se instala, no bairro, uma misteriosa empresa de segurança, o adolescente consegue ali seu primeiro emprego e logo é apadrinhado pelo chefe. Um laço aparentemente profissional, mas que dá partida a um circuito que conecta o passado e o presente de um grupo de pessoas envolvidas, de um lado ou de outro, em luta armada, clandestinidade, espionagem, resistência, repressão, tortura, desaparecimento e morte.

A inter-relação entre esses dois recortes temporais é o que embala o enredo de Vestígios, da paulistana Sandra Abrano. Com uma contextura muito peculiar, o romance se constitui de ingredientes da trama política, do suspense, do drama familiar e do registro histórico. Alguns funcionam; outros, não.

Salta aos olhos, de imediato, a indefinição de um fio condutor. A história se inicia propondo um enigma sobre o destino e o assassinato de dois personagens, para em seguida avançar no tempo e entrar numa conflituosa relação doméstica, eletrificada por uma ausência que se refere a outro enigma. Isso não seria mau, caso as tramas fossem desenvolvidas em paralelo, de modo a elevar e prender a tensão no leitor até se convergirem, todavia não é isso que acontece.

O grande problema do livro está na desorganização. Composta por uma série de fragmentos, a narrativa não consegue estabelecer um sentido de unidade em razão da ordem e, sobretudo, da maneira de apresentar os fatos. Não é culpa da falta de linearidade, que fique claro. O romance K., de B. Kucinski – para ficarmos nessa mesma seara do regime militar -, é formado por uma fileira de contos que empreendem uma organicidade, exatamente por se comprometerem com seu fio condutor: a busca de um pai pela filha.

Faltou essa percepção para Abrano. Além da irriquieta transição de vozes, o andamento é, a todo instante, quebrado pela mudança do formato do texto. A escritura convencional se alterna a pedaços de diários, ficheiros onde são apresentados os personagens, modelos de relatório e até pedaços de matérias de jornal.

De maneira involuntária ou não, a leitura se mete em constantes digressões e a crescente de mistério, que deveria ser o essencial, acaba se dispersando.

Por outro lado, temos aqui uma autora madura, com uma linguagem bem lapidada e segurança na construção dos personagens e na captura do espírito do tempo. A conversão do conhecimento histórico em matéria ficcional também deve ser louvada – com um adendo. Vestígios, numa de suas múltiplas facetas, explora o submundo do Serviço Secreto do Exército Brasileiro, como (pelo menos no conhecimento deste resenhista) só havia sido descrito tão tamanha veracidade em livros de não ficção.

Abrano vai a fundo, dissecando o organismo de “inteligência”que operava na surdina por detrás da temida brutalidade, do pau-de-arara, dos choques elétricos, dos sumiços; um grupo de agentes que trabalhavam para implantar a esperança nos parentes da vítimas, um ato talvez mais cruel que a própria certeza da morte.

 

 

***

 

 

Livro: Vestígios

Editora: Bandeirola

Avaliação: Regular

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