Narrativas guiadas pelo ciclo do amor

Não é preciso ir além do primeiro conto de Amoridades, para perceber que André Salviano se coloca diante de um enorme risco.

Em seu livro de estreia, o autor carioca estabelece como motor de suas narrativas a incidência do amor. Um tema que, no repertório da literatura universal, talvez apenas perca em recorrência para a morte. E, quando mal usado, descamba para a mais constrangedora pieguice, o clichê medíocre, o ridículo.

Convenhamos que não é fácil escrever sobre amor depois de Shakespeare e de Nelson Rodrigues, que, certa vez, decretou: O dinheiro compra até amor verdadeiro.

Mas Salviano se sai bem ao criar um livro-conceito, no qual o assunto vai além da função de nortear o enredo, operando como a matriz de uma concepção que transcende os limites do conteúdo, de modo a determinar diretamente a estruturação da forma.

A linguagem, o estilo, o andamento e, até mesmo, o gênero se alteram (ou se alternam), de acordo com que o eixo temático se encarrega de concentrar narrativas em grupos que caracterizam um ciclo formado por cinco fases do ato de amar, que vai da descoberta, passando pela paixão, pelo sexo, pela desilusão até chegar ao desamor.

Uma espécie de mosaico em que se conta a mesma história por meio de múltiplas histórias, de múltiplas vozes.

Com isso, o tom narrativo varia da conversa pueril de pré-adolescentes se enamorando a um derramamento de frases numa chave nonsense, emulando o torvelinho de abrasamento e euforia provocado pela correspondência afetiva, algo executado dentro de estados de consciência.

Imageticamente, o autor também busca significar esse circuito que envolve aprendizado e engano, resgatando (e subvertendo) a atmosfera lúdica dos contos de fadas e evocando uma soma de referências que vão da literatura à música popular – de Drummond à barata da vizinha, do Só Pra Contrariar.

São pulsões que ascendem em maior e em menor grau, e fazem parte de um processo de experimentações. Ocorre que, por justamente não reconhecer fronteiras para a escrita e se reinventar a cada lance, o corpo textual se desenvolve a partir de fragmentos que se generalizam em certas partes.

Sobretudo quando insiste em focar na dissecação do relacionamento através dos contrastes entre os pares. Inclusive, em alguns momentos se tem a impressão de se tratam de extensões ou de antecedentes da história de determinados personagens – homens e mulheres urbanos, entre vinte e quarenta anos.

Avançar para além dessa faixa etária, aliás, seria uma abordagem interessante, que traria uma visão sobre o tema mais debruçada ao tempo que ao espaço. A não ser que o autor entenda que o sentimento não sobreviva a tanto; o que é triste, sem deixar de ser verdadeiro.

Verdadeiro, enfim, é um bom adjetivo para Amoridades. Um seleta de contos que, por diferentes modos de interpretação, decifra o amor em suas dimensões, seus ecos, suas vítimas, seus prazeres e suas dores. A traição a nós próprios, como bem definiu Fernando Pessoa.

 

 

***

 

 

Livro: Amoridades

Editora: Rubra

Avaliação: Bom

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