Breves formas do dadaísmo

“A dupla vida de Dadá”, conto que intitula o novo livro da escritora Moema Vilela, é composto por uma combinação de quatro blocos narrativos que se atraem ao mesmo tempo que se distanciam.

O primeiro e o terceiro são retratos dos momentos finais de Elsa von Freytag-Lonringhoven, artista polonesa que teve uma paixão platônica por Marcel Duchamp, de quem – dizem – o artista francês surrupiou o urinol que iria se tornar sua obra mais notória. Enquanto os blocos dois e quatro atravessam a vida de Sérgia Ribeiro da Silva, a cangaceira Dadá, amante de Corisco, a única mulher a usar fuzil no bando de Lampião.

O que distanciam as personagens? O tempo e o espaço. O que as aproximam? A força feminina com que, mesmo levadas ao abismo pelo grilhão do amor, converteram a rebeldia radical de suas histórias num símbolo de poder através da arte ou da resistência armada.

É um texto de uma significação inerente aos demais, que exerce bem a função de cerne contextual. Um olhar mais atento, no entanto, vai revelar algo mais.

Está nele o conceito que enreda toda a antologia. Como dito, há menção a Duchamp e também a Hannah Höch, artista alemã considerada uma das inventoras da fotomantagem. Ambos são figuras proeminentes do dadaísmo, movimento de vanguarda artística, iniciado na primeira década de 1900, também chamado de dadá.

Dadá – dadá – dadaísmo. Moema explora o significado da palavra, de modo a operar a partir da influência e da apropriação de um vocábulo sobre o outro.

Desse processo, elabora uma espécie de busca sobre a mecânica das formas breves, movida pela incidência de algumas das características identitárias do próprio dadaísmo: a irreverância, a irônia, o rompimento do formato tradicional e, por conseguinte, a instalação de um certo caos, de uma desordem propositada.

Não por menos, fica difícil classificar A dupla vida de Dadá. É uma reunião de textos que se apresentam ora como microcontos, ora como contos, ora como narrativas que são grandes demais para serem microcontos e curtas demais para serem contos, ora como poesia.

O que é evidente são os recursos e o tratamento que a autora aplica em seu processo de criação, mostrando que seu interesse transcente o resultado do fazer literário. Moema estabelece um plano prévio para se articular, com cuidado e dinâmica, a montagem de uma nanoficção, atenta à organização devida de todos elementos.

Com isso, salta aos olhos um trabalho de estudo, que se ocupa em atrair referências e jogar com intertextos, expondo uma soma de autores que se consagraram no gênero, a exemplo de Cortázar, Lydia Davis, Borges, Galeano, Nuno Ramos, Kafka e, inevitavelmente, Hemingway.

É do “papa” um dos mais celebrados microcontos (Vende-se: sapatos de bebê, nunca usados), que a autora transforma num formidável poema, reconstituindo o momento que levou o escritor norte-americano a criá-lo, ao mesmo tempo que desconstrói a aura do texto, colocando-o à mercê de um nova interpretação.

Moema Vilela demonstra um amplo conhecimento de escrita literária que utiliza para compor o mínimo. Desse modo, seus textos cativam pela qualidade e pela precisão, colocando-a como uma das autoras que desenvolvem uma das obras mais interessantes de sua geração.

 

 

***

 

 

Livro: A dupla vida de Dadá

Editora: Penalux

Avaliação: Muito bom

Um comentário sobre “Breves formas do dadaísmo

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s