A mitologia do sertão paulista

Desamparo é fruto de um trabalho jornalístico que se debruçou sobre a fundação da região noroeste do estado de São Paulo.

A partir da história oficial, o autor Fred Di Giacomo terraplanou em ficção a origem desse povoamento, arquitetando um universo que, embora esteado pelo real, consubstancia-se por uma série de elementos e de ingredientes oriundos da mais fecunda argamassa imaginativa.

Lembra as técnicas de engenho utilizadas pelo colombiano William Ospina para compor seu premiado romance O país da Canela, narrativa com tom aventuresco sobre o descobrimento do rio Amazonas no século XVI, norteada pela disputa de conquista entre os irmãos Pizarro e Francisco de Orellana.

Di Giacomo resgata, do mesmo modo, esse amálgama seminal a fim de reconstituir os dias de personagens históricos – e de outros inventados – num território de geografia tão viva em imagens e cores, a ponto de adquirir uma plasticidade de fábula, a estilização de uma mitologia particular.

Dentre os inúmeros atores da trama, o enredo se articula a partir da relação de violência e de ancestralidade entre dois clãs: os Castro “Capa Negra” e os Carmo Ferreira.

Do vestuário enlutado da matriarca Maria Francisca de Castro “Capa Negra” (daí o epônimo), amiga de Dona Leopoldina e ama de leite de D. Pedro II, o Brasil dos anos 1800, o mundo primitivo do Império português se enlaça na sina de uma família de “homens condenados a serem infelizes no amor ou desaparecerem por morte matada”.

Numa saga que se embrenha por matas, rios e fazendas, os “Capa Negra” desbravam a terra e fazem fama no sertão paulista, envoltos por uma atmosfera de densidade sobrenatural, um realismo que flerta com o insólito ao incorporar lendas e uma forte representação do sagrado pedestre, causos e relatos de compostura bíblica.

Uma linhagem que, a certa altura, cruza com a história de Maria Chica do Carmo, mulher de fleuma e facão, com uma infância de abusos físicos e humilhações, viuvinha que desperta paixões ardentes por “falar a língua dos pássaros, atirar como homem e calcular perfeitamente, mesmo sem saber ler e escrever”.

Nesse ambiente em que se medra e se definha tanto por sangue quanto por semeadura, as famílias participarão da formação social dessa região à escala dos grandes centros, travando batalhas contra os ferozes índios kaingangs, os nativos que defendem as margens do rio Tietê contra a invasão dos brancos, além de serem orbitadas por pequenas narrativas envolvendo matadores, barões, escravos, defesas de honra, vinganças, amores, grilagem de terras e doenças tropicais.

Di Giacomo se impõe, aqui, uma tarefa nada fácil: dar sentido e organização romanesca a uma extensa pesquisa bibliográfica. Acerta mais que erra.

Seu texto é imponente, urdido por meio de um vocabulário rico, robusto, que visa dar consistência a uma dicção arcaica, posta em evidência sobretudo nos diálogos. Com isso, o mundo (re)criado se torna intuitivamente atraente para o leitor que, logo nas primeiras páginas, parece enxergar de fato o que vem decifrado da leitura.

Outro acerto está na organicidade com que o autor opera os níveis de dimensão íntima e coletiva. As ocorrências privadas desses personagens, ora em vez, são atravessadas por acontecimentos históricos, causando digressões que inflam e murcham sem nunca perder o fio da meada, desatar-se do eixo central da trama.

O problema se configura no atrito entre condução e construção de personagem. Di Giacomo opta por um ritmo muito ágil, no qual os atores da trama são apresentados e desenvolvidos durante o curso da história. Em alguns casos, nem isso. Personagens surgem do nada e logo desaparecem – e são muitos; o que gera um pouco de confusão.

É preciso que o leitor diminua a velocidade da leitura e se coloque numa frequência mais lenta, para fazer as associações e os entendimentos necessários. E o livro se mostra ciente disso, disponibilizando, nas últimas páginas, um índice onde lista e descreve os principais clãs e seus integrantes.

Talvez se o autor elegesse a história de uma família para representar a formação desse interior paulista, o romance, em seu âmbito ficcional, seria mais coeso e palatável.

No entanto, trata-se de um movimento de expansão de um povoado real, uma mudança de estado contextualizada por uma gama de acontecimentos que se engendra a partir de uma soma de biografias para esculpir uma, a biografia do lugar. E, nesse quesito, Desamparo não decepciona.

 

 

***

 

 

Livro: Desamparo

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

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