Os registros de um menino doente

Memórias da infância em que eu morri é iniciado por um prólogo que define o leitor como uma testemunha oculta guiada pelo narrador, um menino de nove anos que sussurra uma sequência de fatos sobre a qual incide um mistério.

Certo dia, seus pais adentram seu quarto com atitudes suspeitas, ordenando que o personagem permaneça na cama, enquanto saem para conversar em outro cômodo. Hugo – ou Huguinho – naturalmente não obedece e caminha aos poucos ao encontro da porta fechada. Lá escuta “que algo estranho se esconde no interior de seu corpo”.

Esse é o mote do romance de estreia do carioca Hugo Pascottini Pernet: entender o que se passa com o menino em meio a um circuito de acontecimentos rotineiros que ora obliteram, ora trazem a lume a casca obscura do enigma.

Batizar o protagonista com seu próprio nome também é um recurso intrigante. O autor adverte, no subtítulo, de que se trata de um texto que transita “entre a realidade e a invenção”. Não assume que é um livro de memórias, sugerindo que toda memória é traiçoeira a ponto de depender da ficção para reganhar forma.

Desse modo, o corpo narrativo se configura a partir de fragmentos de um diário, de gravações de fita cassete e de captações de breves diálogos entre os pais acerca do que foi descrito nas partes anteriores. Fica patente que cabe ao narrador em primeira pessoa dar sentido a esses registros.

E funciona, em sua proposta de imersão num espaço reconstruído pelos olhos do menino, que presencia a transitoriedade dos dias sem reconhecer o que de fato aflige a todos que o cercam. O pai e a mãe agarrados a fé, o irmão mais velho zeloso, as enfermeiras, a professora incentivadora e a babá atenciosa.

São participantes recorrentes desses escritos de teor pueril, cuja frequência está no trato de uma banalidade alterada pelo desconhecido. A necessidade da mudança de casa, as privações, a vida escolar, a convivência e as brincadeiras com o irmão, as inúmeras visitas ao hospital para colher sangue e outros exames, o caroço que desponta sob o braço.

A ausência (notada e explicada posteriormente) de uma personagem, na segunda parte do livro, intensifica o tom dramático, produzindo momentos tocantes de beleza indevida, tal qual a sombra que se espraia sobre a infância de Hugo e faz com que busque um certo escapismo na poesia de Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa.

De maneira subjacente, Pernet provoca um pensamento sobre a capacidade da literatura de ter a função de bússola tanto quanto a religião, em casos em que o metafísico se entremostra mais eficaz que a ciência médica, culminando num final cruel ao mesmo tempo que inimaginável.

O problema está na condução. Está certo que o plano é remontar os dias de uma criança assombrada por um mal, contudo a repetição de cenas (ou de situações específicas), embora compreensível, faz com que a leitura adquira um gordura que vai se adensando e tornando trechos fatigantes.

Peret tinha uma realidade muito forte e particular em mãos. Faltou um pouco de habilidade para convertê-la em invenção.

 

 

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Livro: Memórias da infância em que eu morri

Editora: Penalux

Avaliação: Regular

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