O rei do sagrado e do profano

Antes que Deus me esqueça é um livro de formação e de deformação. Em maior e em menor escala.

Em seu romance mais ambicioso e maduro, o carioca Alex Andrade dá forma à história de Joaquim de Jesus, o Joca, no que antecede seu nascimento até seus dias derradeiros.

Fruto de um coito de violação, o protagonista foi gestado num ambiente em que o sagrado e o profano se miscigenavam, da mesma forma que seus antepassados misturaram seus genes portugueses e africanos. Não por menos, sua mãe, a jovem religiosa Joana, escondeu a gravidez do pai até quando foi possível.

Expulsa de casa, buscou abrigo no cortiço em que a irmã mais velha, Marieta, vendia o corpo. O menino, assim, viveu seus primeiros anos na companhia de prostitutas e de seus clientes, até o local ser fechado em razão de uma lei que tornava crime o chamado ato de ofensa sexual.

Sem ter para onde ir, Joana tenta retornar à casa de seus pais, no bairro de Encantado, na zona norte da cidade do Rio de Janeiro, mas é de novo expulsa por carregar “o filho do demônio, o resultado do pecado, do fruto proibido”.

Encontra asilo, por fim, na casa de uma prima, onde Joca troca a convivência com a prostituição pela proximidade da contravenção do jogo do bicho.

Naturalmente, a contragosto da mãe (que, apesar de tudo, segue muito devota a Deus), o personagem ingressa nesse espaço de marginalidade, com rapidez se destacando pela desenvoltura com que torna sua “banca de aposta” uma das mais lucrativas.

Ocorre que, no mundo do crime, ninguém se torna rei sem sujar as mãos cada vez mais.

Andrade articula, aqui, duas histórias que se complementam: a construção desse personagem moldado pelo conflito entre a correção e a transgressão, que há de lidar com as consequências de ser um fora da lei, e a sua busca sem trégua pela identidade do seu pai.

Pelo simbolismo que delineia a (de)formação de sua vida, soa como uma representação de Carnavais, malandros e heróis, de Roberto DaMatta.

Estão ali expostas as estruturas da ordem social, as quebras de hierarquias, as tensões, os mitos do cotidiano, o circuito que se conecta entre as escolas de samba e a igreja, o dilema inquietante entre o certo e o errado, o “mundo da casa” e o “mundo da rua”.

São esses elementos, aplicados nas características de uma multiplicidade de personagens, que iluminam o maior desafio do autor: recriar seu pano de fundo, o subúrbio carioca na virada dos anos 70 para os 80, no qual a ilegalidade da jogatina se enrudecia no poder paralelo do tráfico de drogas – o embrião do monstro que temos hoje.

Andrade se sai muito bem, captando a geografia, a dinâmica social e o espírito daquele tempo com tamanha veracidade, que dá ao texto algo de testemunhal.

Tudo que transcorre pelos olhos de Joca decanta para um plano subjetivo, em que a memória que preserva da infância a todo momento é assombrada por suas angústias, seus medos, seu autoenganos e, especialmente, seu empenho comovente de coletar pistas do paradeiro do pai mesmo sem saber o que fazer caso o encontre.

De maneira voluntária, há ainda um interesse em refletir sobre a crueldade do controle oligárquico, que vem dos senhores de escravos até o regime militar.

Não há santos, em Antes que Deus me esqueça. Contudo, o romance retrata, em seu aspecto circunstancial, uma camada do Brasil que segue à margem, metida em toda a esfera de ilicitudes para conquistar o que deveria ser de direito; o desmazelo que resulta em problemas que gera problemas maiores.

Joca é uma consequência do que não teve. Alguém que tenta, por caminhos tortos, decifrar o passado antes de si para determinar suas escolhas no presente, porém acaba sendo o menino-homem-bandido que persegue um pai como quem abraça fantasmas.

 

 

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Livro: Antes que Deus me esqueça

Editora: Confraria do Vento

Avaliação: Bom

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