Cruzando o ar cambiante da tarde

Um homem caminha pelas ruas de Curitiba, chutando uma bola de papel. Seu nome é Carlos Mel (N. do resenhista: rima não intencional).

Ele executa ações das mais ordinárias (compra uma caixa de fósforos, fuma, lê o jornal, come…), escoltado pelas lembranças turvas de Alzira, seu interesse amoroso.

Carlos é o que poderia se chamar de dublê de protagonista. Tem atrelado a si o fio condutor da trama, contudo não é o centro da história.

A história é o centro da história.

Narrada por uma voz onisciente que, embora acompanhe os movimentos (e os conflitos internos) de seu personagem, a todo instante se mete em digressões das mais surreais, envolvendo a viagem do homem à lua, touradas espanholas, crimes urbanos e índios norte-americanos.

Cabe de tudo em Sexta-feira da semana passada, de Manoel Carlos Karam.

Publicada originalmente nos anos 70, a novela (ou conto comprido) é um exemplo distinto da escrita multifária, criativa, inquieta e incomparável do escritor catarinense, morto em 2007.

Assemelha-se a uma convulsão controlada. Um espaço dramático atravessado por reflexões, notícias, turbulências psicológicas e prosa de ficção.

Frases se encavalam a frases; às vezes levando a nada, às vezes decifrando toda uma ideia em três ou quatro palavras.

Um argumento é trazido a lume, para em seguida ser totalmente esquecido ou, muito mais à frente, mostrar-se uma das chaves do enredo.

Tempo e espaço se embaralham, numa narrativa que cria camadas secretas dentro de si.

Karam experimenta com a forma e a linguagem, armando dispositivos sensoriais para capturar o leitor. Tudo é estranho, meio absurdo, ao mesmo tempo intrigante e provocador.

Há um humor e uma crítica muito refinados, assim como são as referências que alimentam sua fonte criativa, mesclando poesia, teatro e arte visual.

Conta a história que, uma dezena de livros depois, Karam renegou Sexta-feira da semana passada; no que considero uma decisão de vaidade.

Está aqui o embrião de sua literatura complexa que, centrada no caos textual e no nonsense, faz de suas histórias verdadeiras experiências de leitura magnética.

Vale ainda o destaque para o capricho da edição, encadernada de maneira artesanal e toda ilustrada por Frede Tizzot.

 

 

***

 

 

Livro: Sexta-feira da semana passada

Editora: Arte & Letra

Avaliação: Bom

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