Breves formas da natureza humana

Antônio Carlos Viana, um de nossos melhores contistas, dizia que conto é essencialmente ação. E não se trata de ritmo. Mas da habilidade com que o autor articula suas frases, usando do andamento narrativo para estabelecer a dinâmica entre o conflito e a construção do personagem.

Não é tarefa fácil, que fique claro. Pois um bom conto depende de desenvoltura e domínio técnico.

Maria Valéria Rezende é um escritora premiada, sobretudo por conta de seus romances. Agora lança A face serena, livro composto por breves narrativas que demonstram um tino da autora santista para trabalhar com pouco, produzindo histórias que se ajustam, com intensidade e harmonia, aos limites que o gênero impõe à forma e à linguagem.

A exemplo de grande parte das antologias com uma soma expressiva de contos – aqui, são trinta e sete -, há textos formidáveis e outros regulares. O saldo, contudo, é bem acima da média, especialmente por experimentar tipos de narradores, pluralidade temática e flexão de estilos.

No todo, um olhar mais apurado perceberá que os embates internos e externos ocorrem, em maior ou em menor grau, sob o signo da infância. São tipos de perturbações que se instalam na meninice/mocidade, deformando a vida em curso ou confinando a memória ao assalto de fantasmas.

Consequentemente, os personagens são marginalizados, alquebrados, atacados por sentimentos obscuros ou por um vazio continental. Transitam por um espaço dramático que, na maioria dos casos, concentra-se nas cidades interioranas; o sertão, o fim do mundo.

Maria Valéria Rezende tem uma escrita magnética, de frases bem pontuadas, polidas, dotadas de representações simbólicas que transcendem a concisão textual. Problemas de natureza social ganham destaque em sua prosa, assim como a figura da mulher que ama, que ora é frágil ora é forte, que resiste num ambiente severamente machista.

Em outros casos, a autora se debruça sobre os meandros da literatura, estilando uma ironia sutil na observação do fazer literário (sobra inclusive para os críticos!) ou usando de uma fina prática de intertextualidade para criar ou fazer experimentações com a forma.

Fica patente, afinal, de que se trata de contos escritos em diferentes épocas, mas que, editados com cuidado e organicidade, empreendem uma escala de assuntos de caráter intimista para a concentração de temas universais. Uma coletânea que se edifica, por assim ser, em conhecimento e sentido.

 

 

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Livro: A face serena

Editora: Penalux

Avaliação: Bom

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