As feridas intratáveis do regime militar

Com a abertura política e a promulgação da Lei da Anistia, na passagem dos anos 70 para os anos 80, muitos escritores brasileiros gestaram do exílio uma safra de livros que lançava mão da memória para remontar experiências recentes do tempo da ditadura.

Dos títulos desse período, destacam-se O que é isso, companheiro?, de Fernando Gabeira; Batismo de sangue, de Frei Betto; e Os carbonários, de Alfredo Sirkis.

Três décadas depois, uma série de títulos que revisitam o regime militar dá a feição a um novo ciclo em trânsito.

A diferença é que agora essas obras, em sua grande maioria, articulam seus enredos através do tratamento ficcional, de modo a dimensionar e motivar seus personagens ou a construir panos de fundo com que se apreendeu dos dias de chumbo no tecido da história.

Poucos são os livros produzidos na década atual que, ainda que delineados pela imaginação, têm a capacidade de deslocar o leitor para aquele universo real marcado pela luta política, pela repressão e pela vilania, pelo medo e pelo terror da tortura, dos desaparecimentos, dos assassinatos.

Um grupo seleto no qual se incluem K, de B. Kucinski; Cabo de guerra, de Ivone Benedetti; e o mais recente Noites simultâneas, de Maurício Melo Júnior.

A força – e, por conseguinte, a identidade – do romance do jornalista e escritor pernambucano está em sua capacidade de, logo nas primeiras páginas, instalar uma leitura imersiva que estaciona na mente mesmo depois de superada a última página.

Isso se dá por conta do teor testemunhal, do aspecto quase intrusivo com que se posiciona o espectador dos fatos. Não se trata de um texto repleto de datas e acontecimentos históricos, de viés partidário e/ou didático, e sim de uma narrativa que se utiliza do que se conhece do período para galvanizar um fundo eminentemente psicológico.

Os personagens amam, sofrem, transformam-se, e esses estados de comoção se transferem para a escrita. Em muitas partes, o que se tem é uma história mental, demarcada por efeitos sensoriais acionados por ruídos, odores, tato. Sim, parece improvável, mas aqui é possível experimentar o sofrimento da tortura de maneira física.

A trama acompanha um estudante de medicina, do interior do Nordeste do país, chamado de moço, que, pego de surpresa num confronto entre a polícia da repressão e a massa de estudantes, conhece uma estudante de sociologia, nomeada de moça, integrante de uma organização de resistência ao regime militar.

Do desdobramento do afeto, ele se envolve com a luta armada e assume uma posição apostolar, fazendo parte de um movimento de cooptação do proletariado e de missões clandestinas, até cair numa emboscada, ser preso e conduzido ao departamento institucional de tortura.

Maurício Melo Júnior recorre a uma linguagem densa, dotada de um furor magnético entre as frases ordenadas com agilidade, para elevar uma atmosfera de risco constante, de conflito iminente e, por fim, de absoluta asfixia. O cuidado com a seleção das palavras provoca, de maneira involuntária, combinações líricas num ambiente de extrema violência, a exemplo da beleza sórdida que se desenha no voo de uma barata contra a luz fraca que banha a cela de um torturado.

A perspectiva em terceira pessoa ora em vez é infiltrada por narrações em primeira pessoa, compondo um tecido de vozes, de gritos, que, ao mesmo tempo que distingue o interlocutor, valida-o um representante anônimo de muitos. O moço e a moça, como tantos moços e moças que foram brutalizados, mortos, desaparecidos.

Aí está o caráter simbólico do livro: em ser o registro de toda uma geração, concentrado no arco dramático de um indivíduo; nas feridas pulsantes que a ditadura deixou na sociedade brasileira até hoje representada na carne, nos ossos e na alma de um preso político, um homem que nunca saiu de fato do porão de métodos brutais de interrogatório.

Um romance, enfim, fundamental para todos aqueles que, incautos, pedem o retorno do regime militar.

 

 

***

 

 

Livro: Noites simultâneas

Editora: Bagaço

Avaliação: Excelente

2 comentários sobre “As feridas intratáveis do regime militar

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