A vida que se consome antes da morte

Veneza, de Alberto Lins Caldas, tem como ambição narrativa desvendar um personagem através de sua relação com um universo que se torna intrigante e perigoso à medida que a experiência da realidade se superpõe ao encantamento poroso da projeção.

Em seu mais recente romance, o escritor pernambucano se utiliza do artifício do texto apócrifo – aquele que é atribuído a um autor desconhecido.

Aqui, trata-se de um Códice que Lins Caldas afirma ter resgatado do lixo, quando trabalhava num Arquivo Público de um Estado. Escrito em francês e disposto de forma aleatória, o autor informa que gastou cinco anos de tradução para trazer a lume o relato de um tal Pierre Bourdon, um cavalheiro em seu retorno à amada terra italiana.

Este documento enigmático e incompleto que servirá de matéria para o livro.

Do suposto fato para a representação ficcional, a trama tem início com Bourdon, em algum canto da França, escapando de um marido que o surpreendeu na alcova de sua mulher. Depois de uma fuga desembestada, ele sequestra seu criado Mouro, um ex-escravo, para o convés de um navio rumo ao alto-mar e, se vivos, à Veneza.

Narrado pelo ponto de vista do protagonista, o testemunho descritivo se pega, ora em vez, invadido por um estado de consciência quase pueril que dá conta de uma mocidade vivida em Veneza, embora este mesmo declare que aquela não é sua terra natal.

Nestes fluxos de memória, a cidade italiana é repassada por um filtro de maravilhamento, um feitiço do passado que se desfaz logo que o navio atraca. Veneza é outra porque ele é outro. E como parte integrante daquele mundo novo, o que sente e o que presencia é reflexo desse lugar estrangeiro versus aquele que protegia com afeto dentro de si.

Vagueia, desnorteado, na companhia fiel de Mouro, que processa a dor da distância. A esmo pelos dias, não custa, outra vez por conta do fraco pela mulher alheia, a se enredar em perturbações, transformando sua aventura despretensiosa numa jornada de reflexão sobre a vida que se cruza a um estado de contrastes, (auto)enganos e dependência.

É bem arriscado um autor contemporâneo apostar numa reconstrução histórica – neste caso, a virada do século XVII para o XVIII – a partir da chave da imaginação, sem que pareça um parodista ou um medíocre copiador. Lins Caldas acerta, pois, antes de um escritor intelectualizado, mostra-se um leitor intelectualizado.

Sua peça literária tem influência direta do Molière de As artimanhas de Scapino, delineando de humor fino as atitudes de seu protagonista e sua interação com o criado. Ao longo do livro, outras referências despontam, a exemplo do capítulo em alto-mar que lembra as navegações de Melville e certas estilizações shakespearianas.

Desse modo, salta aos olhos a perícia do autor em dar dimensão psicológica ao narrador da sua história através de suas ações e da forma com que analisa sua própria existência. O efeito se estende para a linguagem fortemente imagética e movida por uma retórica sensorial. A fala é o conduto da visão, do olfato e do paladar.

Veneza é um romance cheio de vida, afinal, sobre um homem que aponta um destino, porém não consegue alcançá-lo mesmo estando nele. Um mundo situado na fronteira entre o real e a ficção, sobre o qual se incidem a vaidade humana e o tempo fugaz.

 

 

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Livro: Veneza

Editora: Penalux

Avaliação: Bom

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