Exercício engenhoso de contemplação

Se no princípio era o Verbo, e Ele, ao criar a luz, a chamou de “dia”, e às trevas denominou “noite”, logo nomeando, batizando os componentes iniciais de seu relato, não pude fazer o mesmo em relação a ti. Entenda: durante muito tempo busquei a palavra exata para definir os primeiros dias que passamos juntos.

O trecho acima é bem representativo da relação entre inspiração e natureza na construção O mal de Lázaro, romance de Krishna Monteiro.

Na primeira frase, há uma citação direta ao Novo Testamento, e esta cognição de texto sagrado dá escopo para a narrativa principal, cujo personagem de interesse se origina da mescla de duas figuras descritas em evangelhos: Lázaro de Betânia e Lázaro, o leproso.

Na ficção de Krishna, apenas Lázaro. Um homem que é avistado numa trilha arenosa, entre as montanhas e a rota para o oceano, caminhando a passos pequenos na companhia de uma multidão. Está doente e sofre fisicamente. Mas também por uma dor que se encontra além de si.

Neste ponto, insurge a voz que se revela na segunda frase do trecho supracitado. Uma narradora onisciente, vestida em sombras, que relata a rotina de desalinho deste homem frágil e atormentado ao mesmo tempo que o contempla. Por inteiro, de uma forma quase transcendental, que parece investigar sua fração ontológica.

Institui-se, portanto, a motivação do romance: de ser um exercício cuidadoso de contemplação.

A mulher misteriosa verbaliza, em tom de registro, o cotidiano daquele que nomeia Lázaro, sem paixão evidente, mas com um misto de fascínio e comiseração. Sua rotina de trabalho num matadouro, a busca em exorcizar o que incorpora da faina em pinturas que retratam animais mortos.

Além do indivíduo, seu olhar também captura a cidade. (…) vielas, avenidas; sons de pés, de bocas que apregoam mercadorias em meio a cascos e rodas. Um local indefinido – talvez Nazaré, um território à margem do Mar da Galileia -, amarelento, árido, tão desidratado quando o interior do homem possuído pelo demônio das chagas.

Com esse espaço dramático armado, o autor fia sua tessitura de modo remansoso e elegante, compondo associações líricas por meio de uma linguagem imagética que dá intensidade a um clima fabular; um tipo de condução textual que ressoa nas parábolas bíblicas.

O fim da primeira parte, porém, guarda um segredo que altera completamente a maneira de se relacionar com a história. De modo que, ao voltar a esse universo mais à frente, as passagens que focalizam a relação entre a narradora e o Lázaro do deserto adquirem o aspecto de digressões reiteradas.

Reservando esse momento para as últimas páginas, o autor obteria um impacto maior e, a reboque, engradeceria seu enredo com o acento da intertextualidade.

Isso à parte, O mal de Lázaro se configura um trabalho de engenhosa subversão da forma, sem que o movimento interfira na imergência do conteúdo. Imprimindo uma voz genuína à sua narradora, Krishna Monteiro coloca o leitor nesse universo em que um homem enfermo defronta a finitude como a transição do tempo sem a égide de um salvador.

 

 

***

 

 

Livro: O mal de Lázaro

Editora: Tordesilhas

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s