A desdita como legado feminino

A via crucis da narradora de Sorte, de Nara Vidal, começa na Irlanda, nos anos 1800.

Margareth é a segunda filha de uma família controlada por um patriarca severo, temente a Deus, que se tornou ainda amargo depois de perder uma perna em decorrência da tifo e, sobretudo, por ser pai de mulheres.

O pai não escondia a predileção por um filho. Não sentia particular interesse dele por mim e nem por Martha ou Mary. Éramos uma tentativa, um erro, uma rasura, algo a ser refeito, refinado, melhorado até sair um filho, retrata a protagonista.

O destino ainda reservou ao homem mais uma menina. Depois, “mesmo com tanta ofensa e tanta miséria”, a esposa finalmente lhe deu dois filhos.

Isso, no entanto, não serenou o desgosto do aleijado, rodeado por mulheres. Quem iria trabalhar, ganhar algum dinheiro? Estávamos todas desgraçadas pela pobreza e condição feminina, pragueja o pai aos quatro ventos.

A solução para as penúrias orgânica e espiritual é tentarem a sorte no Brasil, o “Hy-Brasil”, uma ilha movediça que aparece de sete em sete anos e, assim, infinitamente. A nova terra tem algo de temerário e fantasioso para todos eles; quem conseguisse chegar lá, em sete dias era engolido pela areia da ilha que virava um monstro faminto e desgraçado.

O que há de verdade nesta representação é a desdita que vão levar da Irlanda durante os trinta e seis dias da viagem de navio.

As más condições a bordo propagam doenças e mortes. Margareth conhece o médico Orlando, com que se alia num relacionamento de alcova. Uma de suas irmãs se encanta pelas atividades das freiras e decide seguir a ordem das Carmelitas, enquanto aos irmãos o desembarque reserva outro destino.

O Brasil está em guerra contra a Argentina, obrigando que todo homem, estrangeiro que fosse, “servisse na Guerra da Cisplatina por pelo menos cinco anos antes de conseguir um lote de terra”. A nova pátria ainda lhes guardará abundosos infortúnios, tal como aquele que a narradora carrega consigo mesmo antes de chegar.

Nara Vidal confecciona uma novela em todo seu aspecto identitário. Frases curtas e bem ordenadas, transições temporais regulares, dinâmica intimista entre os atores da trama, estabelecimento da dimensão psicológica através das ações dos personagens.

Em sua camada epidérmica, é um livro, com pano de fundo histórico, sobre a imigração e como, distante da imagem de um mundo de boa-venturança, a nova terra se apresentou um território marcado por conflitos, desigualdade, opressão social e religiosa, miséria e fome.

A força narrativa, porém, está em seu conduto simbólico, em como a autora converte realidade em ficção para tratar da violência à mulher; neste caso, em diferentes esferas.

A menina repudiada pelo pai, preterida em relação ao filho; a esposa submissa, abusada e humilhada em sua própria casa; a mulher solteira compara à prostituta; as escravas virgens estupradas e engravidadas pelos donos das fazendas; as mães solteiras que tinham seus bebês sequestrados em nome de Deus.

Sorte é, em sua motivação temática, mais um título que enriquece o projeto literário de Nara Vidal cujo cerne é o universo feminino. Desta vez, resgatando do passado experiências e fatos que expõem um curso de maldade, desrespeito e feminicídio que atravessa séculos até os dias de hoje.

***

Livro: Sorte

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito bom

Um comentário sobre “A desdita como legado feminino

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s