Dois fios de uma trama familiar

Dois, do professor Oscar Nakasato, é narrado por duas vozes dissonantes dentro de um mesmo palco dramático.

Dois irmãos idosos que se alternam na condução dos capítulos, recuando e avançando no tempo para recompor, do novelo da memória ao eixo do presente, um tecido familiar cujos fios desataram para dar sentidos completamente opostos às suas vidas.

Zé Paulo é o mais velho. Um sujeito metódico, carrancudo, preconceituoso, que desenvolveu, desde criança, um desprezo pelo irmão caçula, Zé Roberto, por este gozar da proteção da mãe e da irmã, Maria Luísa, tornando-se um indivíduo instável, descomprometido, dado a impulsos e a ideais de rebeldia.

O quarteto de filhos se completa com Zé Carlos. Descendentes de portugueses, que levam uma vida de classe média na cidade de Maringá, dos anos setenta, no rebordo da comunidade de imigrantes japoneses. Gente trabalhadora, menos o Zé Eduardo, que era um vagabundo, porque em toda família tem que ter um torto, indigna-se Zé Paulo.

O primogênito virou dono de uma relojoaria, casou-se, teve dois filhos e nunca saiu de perto dos pais. O irmão caçula saiu de casa, ainda na mocidade. Envolveu-se com militância política, teve de se exilar no Chile, depois na França; tornou-se um ilustrador, antes de retornar ao Brasil. Permaneceu solteiro.

Cada qual conta a sua história, a história do outro e a história da família, a partir de seu ponto de vista dos fatos. Na maioria dos casos, a visão sobre um personagem muda radicalmente do entendimento de um irmão para o outro irmão. É comum também um acontecimento oferecer duas perspectivas, durante as transições de vozes.

Aqui há um fato que chama atenção. Enquanto Zé Roberto fala para o leitor, Zé Paulo se dirige a um interlocutor oculto, somente revelado nas últimas páginas. Isso tem a ver com a preservação de um segredo que singra todo o romance, mantendo-se intacto – e surpreendente – até o fim.

Por outro lado, a aplicação desse jogo narrativo cobra do leitor muita atenção e uma dose de paciência. O texto é intencionalmente emaranhado, gerando uma confusão calculada, sobretudo no que se refere à designação de cada membro da família e em qual geração este se posiciona.

Com o avançar da trama, o quadro vai se organizando (pai, mãe, tia, sobrinho…) e o andamento se beneficia da adoção de uma linha de raciocínio linear, mesmo que o vaivém temporal permaneça. Outro acerto é projetar, desse fundo doméstico, um recorte da história do Brasil marcada pela repressão e pela censura.

Nakasato tem uma escrita fina e fluente, que não se ocupa de psicologismos ou afetações. Os personagens se humanizam através de suas ações e escolhas.

Isso é fundamental, quando se trata de uma narrativa que se propõe a explorar os contrastes entre seus narradores. Funciona. A cada início de capítulo, fica claro quem tem a locução.

Nas últimas páginas, o romance se desocupa da balança de afetos e amarguras para investigar a contundência de um ato, cuja proposta é estimular o julgamento do leitor para com os atores principais da trama.

Quem é bom ou mau, certo ou errado?

Compreender essa lógica, diante dos fios que encontram suas pontas, é concluir que a duplicidade, de fato, nada mais é que a representação do um.

 

 

***

 

 

Livro: Dois

Editora: Tordesilhas

Avaliação: Bom

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