A um passo atrás da morte

O ponto fundamental da literatura de Ana Paula Maia é a capacidade de instaurar um universo ficcional, cuja identidade se percebe de imediato.

Basta algumas frases, para a autora arrastar o leitor para o seu mundo constituído de uma geografia árida, nociva e opressora, que se reflete na psicologia dos atores da trama, na mesma medida que as ações e as atitudes destes atores operam na construção do ambiente no qual circulam.

Um tipo de similitude narrativa que se tornou uma marca de legitimidade, para mais de uma solução estética ou do fato de os personagens saltarem de um livro a outro.

Enterre seus mortos, sexto título de Maia, protagonizado outra vez por Edgar Wilson que, desde Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, de 2009, só não esteve em seu romance anterior, Assim na terra como embaixo da terra, chama atenção justamente por essa correlação, digamos, corpórea entre homem e natureza.

Depois de abater porcos e trabalhar num matadouro de gado, Wilson age como que despovoado de qualquer vestígio emocional, capaz de presenciar um acidente terrível, participar de seu sangrento desdobramento e, logo depois, sentar para saborear um prato de costela com batatas cozidas e agrião.

De alguma forma, esse comportamento se transparece no cenário que, em alguns momentos, dá a impressão de uma paisagem pós-apocalítica.

É verdade que, ao longo dos anos, o subúrbio carioca, que foi palco dos primeiros livros, deu lugar a um território à margem dos grandes centros urbanos, devoluto, que, apesar de vasto, abrigava ainda algumas construções, algumas arquiteturas internas.

Neste novo romance, porém, o vazio tem a mesma importância que a de um personagem. As estradas sem norte, as cidades fantasmas, a floresta morta, o rio doente. Tudo está doente, afinal. Os que restaram vivem no entorno de uma pedreira de calcário que, a cada explosão, contamina o ar com pó químico.

Edgar Wilson agora trabalha no recolhimento de animais mortos nas estradas, com os quais enche a caçamba de sua caminhonete, para em seguida despejar o conteúdo dentro de um enorme moedor que vai transformar as carcaças em compostagem usada na fertilização do solo.

Em sua companhia, está Tomás, um padre excomungado que leva sempre consigo um vidrinho com óleo para oferecer a extrema-unção aos acidentados que encontram pelo caminho.

Indiferentes à cenas e circunstâncias das mais viscerosas, eles tocam a rotina com uma normalidade aterrorizante, que serve como conduto para uma contemplação de caráter existencial proposta pela autora. Se nos livros do começo da carreira, a brutalidade se manifestava em atos de violência, em Enterre seus mortos a desumanidade advém da apatia com que esses personagens se relacionam e convivem com a morte.

Não é de agora, decerto, que Maia projeta, desse fundo graficamente realista, uma reflexão sobre o curso errante da vida e seu fim. A diferença está na articulação de um entendimento que avança pelo campo espiritual, expondo a religião ora como objeto de crítica, ora como dispositivo simbólico.

Neste universo de clima desolador, mortiço, presencia-se o movimento de um grupo de evangélicos, guiados por um homem que se autointitula o escolhido de Deus para a salvação numa terra que visivelmente foi esquecida por Ele. Em dado instante, um personagem impõe a outro um sacrifício, em troca de uma cura.

Mas tal contexto adquire realmente força, quando Edgar Wilson encontra o corpo nu de uma prostituta enforcada a uma árvore, com os pés queimados.

Para além da referência direta à Inquisição, o cadáver está sendo atacado por abutres, evocando Mateus 24:28, onde está registrado o seguinte dito de Jesus: Onde estiver o cadáver, aí se ajuntaram os abutres. Mais à frente, outra menção bíblica diz respeito a algo insólito envolvendo um pastor e seu rebanho de carneiros.

Após o corpo da prostituta, o cadáver de um homem é achado, incorporando um novo elemento às narrativas da autora: o flerte com o gênero policial. O mistério também acaba tendo a função de fio condutor para a trama que, até então, seguia como uma colagem de pequenos episódios.

Aonde essa condução vai levar possivelmente decepcione o leitor à espera de um vilão (há sutis indicações para esse caminho), no entanto é brilhante ao se coadunar ao projeto literário de Maia de explicitar, nos domínios da ficção, o asselvajamento dos homens no ordinário da vida e, agora, no despojo não menos cruel da morte.

Há novos ingredientes e ambições neste novo romance, trabalhados com a mesma linguagem seca que dá forma aos ambientes de isolamento e de total aridez.

No que se mostra um livro de transição, Ana Paula Maia abre espaço para a entrada de gêneros e a internacionalização de sua literatura, que não se preocupa mais em reproduzir um pedaço desgraçado do Brasil, e sim ser um pedaço desgraçado de qualquer lugar do mundo.

 

 

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Livro: Enterre seus mortos

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Muito bom

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