Dramalhão sem luz própria

Faz um tempo, li uma entrevista de um crítico de cinema que contava que, certa vez, alguém lhe disse que ele tinha o melhor emprego do mundo, pois passava o dia inteiro vendo filmes. Daí ele respondeu que estaria de acordo, caso não tivesse de assistir e escrever sobre os filmes ruins.

Claridade, estreia de Renato Moraes, tem mais de quinhentas páginas, e logo nos primeiros parágrafos dá para notar que atravessá-lo não será tarefa fácil.

O romance tem início com Ricardo, o protagonista, num quarto de hospital, diante do leito de Nina, sua noiva, que está prestes a morrer. Numa cena que parece xerocada de A culpa é das estrelas, eles realizam a seguinte conversa:

Ricardo, sua vida vai continuar sem mim. Aceite, é óbvio. Você não pode se transformar em uma espécie de noivo viúvo, um solteirão ferido pela vida. Se ficar com pena de você mesmo, vai me decepcionar demais. Seria ridículo.

Devagar, moça! Quem a ouve falar assim pensa que você é uma pedra de gelo! Não me esqueço de como a durona chorou de saudade, só porque passou uns dias sem ver o sobrinho…

Mas melhorei e não chorei mais. Pelo meu sobrinho, você me entende. E pare de despistar, isso não tem nada a ver com que estou dizendo.

(…)

Querido, não suporto pensar que você talvez fique por aí, largado, sem buscar ninguém. Preso em um mundinho de recordações.

Vou tentar que não aconteça, está bem? Só não posso garantir nada. A vida vai continuar, mas não vai ser a mesma coisa. Ao menos para mim. Além disso, que garota vai conseguir me chamar a atenção, se eu compará-la a você?

Então não compare! “Cada mulher tem os seus encantos”, meu pai gosta de dizer. Descubra nelas o que não achou em mim. Você vai conseguir encontrar alguém melhor que eu.

Ah, vou sim. Aliás, estou sempre esbarrando em gente muito melhor do que você. Por que você não pergunta ao seu pai se ele conhece uma mulher que chegue aos pés da filha dele, para ver se essa regra funciona?

Presumo que não precisa de mais, para evidenciar o quanto os diálogos aqui são mal escritos. Falta desenvoltura e sobra uma afetação robótica que, repleta de intervenções melodramáticas e lugares-comuns, dá a impressão de terem sido compostos para um novelão mexicano.

Ricardo, que é um advogado conceituado, fica “noivo viúvo”, ao fim do capítulo. A história dá um salto temporal, até o dia em que ele é convidado para um almoço na casa de um primo, que anuncia que vai se casar com Gabriela, cujo marido foi morto durante um assalto, na frente de uma de suas filhas.

Depois do casamento, Ricardo, com suas boas intenções e postura de protetor da moral e da justiça, começa a se relacionar com a nova família do primo, transformando sua experiência de perda num ingresso para esse universo transfigurado pelo luto, em especial a parte que cabe às filhas de Gabriela.

Poderia ser um livro de chave ensaística sobre os efeitos da perda, mas não é. Poderia ser um livro sobre o processo de superação, mas também não é.

Na orelha, o escritor Rodrigo Duarte Garcia conclui que “o tema principal do romance é mesmo a ‘graça’, e as muitas coisas que há entre o céu, a cidade de Campinas e os personagens que se movem por ela – personagens reais como a vida”. Longe disso.

Uma das indicações de que Moraes não domina a prosa de ficção é o uso desbaratado de muletas para camuflar sua inabilidade. Tomando como exemplo o trecho da festa de casamento, o autor faz questão de apresentar detalhadamente dezenas de personagens, para depois desaparecê-los da história.

O ato de vestir os atores da trama com um rol interminável de características é uma tentativa (frágil) de humanizá-los, quando o correto é angariar dimensão psicológica à medida que as atitudes e as decisões contribuem para o desdobramento do enredo.

Não há nada de mau, também, em escrever sobre o ordinário, os eixos que se movem para a construção do prosaico. No entanto, a simplificação do conteúdo há de privilegiar a forma e/ou o estilo – o que não acontece aqui. Fica a dica da leitura de Se ninguém falar de coisas interessantes, do britânico Jon McGregor.

De fato, a costura da trama parece refém de uma espécie de puritanismo fora de órbita, uma forma pudica de visão de mundo, que se manifesta através das falas. Não há palavras grosseiras, mesmo em situações de desespero. Fica parecendo aqueles textos de baixa classificação etária, que não se priva de soltar um “macacos me mordam!”.

Que fique claro que não estou defendendo que literatura tem de ser uma metralhadora de palavrões, todavia substituir as reações naturais por um tipo de emoção calculada só contribui para a artificialidade. Vide o diálogo abaixo, quando Ricardo e um amigo descobrem que o escritório onde trabalham poderá ser multado em quinze milhões.

Que paulada! O procurador-chefe está se achando o paladino da ecologia. Ele estava cantando vitória ontem, na televisão, com a cara de sapo dele. A intimidação deve estar na sua mesa, vi lá faz um tempo. Uma besteira dessas pode afundar o escritório, você tem consciência disso?

Eu sei, eu sei. Fui um idiota, um irresponsável, o que mais você quiser. Mas não adianta ficar reclamando. Vamos montar uma equipe, chamamos o Bernardo, os estagiários, e fazemos o melhor que pudermos. Só que o velho não pode descobrir, de jeito nenhum. Senão, me atira pela janela.

É melhor ele pensar em outra coisa, porque a janela você não atravessa, gordo do jeito que está. E a queda não vai ser suficiente para matar; no máximo, pode servir para arrebentar o chão.

Agora não é hora de brincar, desgraçado! Estou a um ponto de perder o emprego, e você fica fazendo piadinhas… Com um amigo assim, eu mesmo me mato!

Lembra um pastiche, e, a certa altura, um comentário meio que sugere que o autor está compondo uma paródia, quando uma personagem esculhamba Memórias póstumas de Brás Cubas, declarando que “o tal do Machado de Assis, que todo mundo elogia, tem o dom de escrever sobre nada”.

Contudo, nessa mesma parte se inicia uma discussão sobre bullying, carregada de um filosofês canhestro, e fica claro que a coisa toda é levada a sério. Inclusive, a partir daí o livro se aproxima do gênero da autoajuda, ilustrado por um trecho no qual um adolescente pede conselho ao protagonista por conta de sua relação conturbada com o pai.

Você se lembra da última vez em que deu um abraço, um beijo nele? Você pergunta de vez em quando como ele está?

(…)

Não se lembra? Mas se lembra muito bem de quando ele maltratou você. Desse jeito, é natural que ele considere você um aliado da sua mãe.

Por outro lado, um fundo religioso começa a direcionar o andamento da trama, por meio de citações da bíblia e exclamações da ordem de “Vale a pena dar a Deus o melhor!”. Expressa, aliás, uma intenção de doutrinamento, com a entrada de uma personagem munida de frases de teor evangelizador.

Senti o impulso de me entregar, seria uma espécie de desagravo, de compensação, por tantos que colocam Deus no último lugar. Era o que eu vinha fazendo, na prática: arrumava desculpas para me poupar, garantia para mim o principal e dava a Ele as sobras.

Confesso que, desse ponto, fiquei intrigado se não tinha em mãos um livro de propósito religioso, ainda que não tivesse encontrado qualquer nota que validasse tal impressão, tampouco de que se tratasse de um título assumidamente voltado para a autoajuda.

No entanto, independente da classificação, certo é que Claridade contém uma literatura minada por seus defeitos numerosos e evidentes, dando a crer que foi escrito por um adolescente intoxicado pelos seus primeiros arroubos artísticos.

 

 

***

 

 

Livro: Claridade

Editora: Record

Avaliação: Ruim

4 comentários sobre “Dramalhão sem luz própria

  1. Desde que comecei a ler o livro não consegui mais parar. Fala de vidas comuns e o personagem principal é alguém incrivelmente admirável e carismático. Alguém com quem temos vontade de conviver e com quem gostaríamos de aprender a viver. Não tenho dúvidas de que o modo como transforma as pessoas a sua volta, é um modo realmente efetivo, mesmo na vida real. O livro é uma escola de vida.

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  2. Essa crítica ao livro “Claridade” de Renato Moraes, me parece muito superficial e precoce, me passou a impressão de quando não conseguimos nos conectar com a trama de um livro e precisamos formar uma opinião obrigatória!
    Eu estou completamente envolvida, não consigo parar de ler!! Amando num nível máximo, recomendo!

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  3. Apesar dessa crítica negativa (como se não fosse possível existir pessoas boas no mundo, como o personagem do livro), é um dos raros livros que, depois de começar a leitura e acostumar-se com o estilo, não se consegue largar. Recomendo demais.

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  4. Discordo da crítica( dando a crer que foi escrito por um adolescente intoxicado pelos seus primeiros arroubos artísticos).Imagino o contrário. A cada capítulo, o autor me remete a reflexão. Personagens e locais bem detalhados. Linguagem culta e admirável. Até agora minha impressão é que nos próximos capítulos será travada uma batalha entre o bem e o mal. Provavelmente o final será: superação e transformação. Recomendo..

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