O que não se mantém enterrado

Ao despertar, no dia de seu aniversário, o fotógrafo Miguel sente-se arruinado física e psicologicamente.

A vida sem regras, movida por sexo e drogas, faz com que seu corpo, aos cinquenta anos, funcione como o de um homem de setenta. Seu estado emocional são os destroços de uma implosão de “tédio, solidão e abandono”. Não entende como ainda se mantém vivo.

Até quando eu enfrentaria as agruras do mundo usando as fugas temporárias? Não sei. Honestamente, não sei.

A razão está na maneira ambivalente com que se relaciona com a morte. Se no aspecto pessoal as perdas foram determinantes para moldar seus traumas e seu comportamento hedonista, no campo profissional foi o que pavimentou seu caminho para a glória.

Miguel fotografa cemitérios. Arte tumular. Percorre campos-santos ao redor do mundo, em busca de material para preparar exposições. Ganhou prêmios internacionais.

No entanto, o dinheiro e a fama não foram suficientes para exorcizar os demônios da infância e da adolescência.

A morte precoce do pai, um homem que teve de se resignar com o emprego de coveiro para sustentar a família. Foi acompanhando o trabalho do pai que Miguel se interessou pelos mortos e suas moradas eternas. Mas também porque nunca o recriminou por conta de sua homossexualidade.

O irmão mais velho, sim. Breno sempre teve vergonha, no tempo de escola. Uma raiva contida que se converteu em ressentimento, quando o irmão deixou a casa e não mais retornou, até a notícia do suicídio da mãe, tragicamente – ou propositadamente – no dia do aniversário de Miguel.

A volta a esse ambiente de feridas abertas e de conflitos é o ponto de partida de Ninguém me ensinou a morrer, de Mike Sullivan. Velho e demolido, o protagonista se perde nos domínios da memória para reviver essa experiência pesada e cruel, não para desvendar a origem de sua melancolia e sim como se precisasse se abastecer dela.

É como se estivesse tão intoxicado, que para se livrar do vício subconscientemente recorre ao efeito desse próprio vício. Uma espécie de zumbi que se alimenta de seus erros, autoenganos, desejos proibidos e dores, atravessando os dias sob o signo da depressão.

Esse é um aspecto uterino ao personagem – e, por conseguinte, ao enredo -, acentuado por suas atitudes e decisões. A forma como que reage ao reencontro nocivo com o irmão, como processa as causas do suicídio da mãe e a herança mortiça que seu pai lhe deixou.

Mais à frente, enquanto tenta corresponder às expectativas de seu agente de montar uma nova exposição, Miguel se enreda num processo de descoberta de sexualidade, visto como imoral pelos dogmas sociais e religiosos, tratando suas decepções na companhia de um conhecido com quem consome drogas à medida que é consumido.

E aqui está a chave do enredo que, se mal interpretada, pode arruinar seu entendimento. Sullivan escreve sobre o homossexual oprimido pela família, cujo preconceito se transforma, ao longo dos anos, em autodestruição. Uma premissa que, à primeira vista, tende a parecer clichê; caso a pauta dos noticiários não reprisasse histórias assim com regularidade.

Transportada para a ficção, a realidade é adaptada por meio de um plano de consciência destemperado que se alterna a uma série de fatos que não deixa claro seu fio condutor. Um andamento sem encaixe que, a despeito da falta de organicidade, acerta na medida que a potência do texto se encontra naquilo que não foi expresso.

O autor opta por agir em camadas subterrâneas, deflagando associações, sugestões e interpretações, com as quais estabelece questionamentos morais, crítica à sociedade e ao doutrinamento cristão, além construir um painel simbólico sobre o que não se mantém enterrado.

Como a religião pode considerar aceitável uma manifestação sobrenatural e demonizar a orientação sexual de alguém fora de seus preceitos? Como ainda não se dá o grau de importância a – possivelmente – maior doença deste século: a depressão?

Neste ponto, é possível notar que, para chegar ao seu texto, Sullivan cruzou alguns territórios, a exemplo de O demônio do meio-dia, de Andrew Solomon. Em outros trechos, fica a impressão da presença de livros como Giovanni, de James Baldwin, e o de fama recente Me chame pelo seu nome, de André Aciman.

O ponto fraco são os excessos. Ao relacionar erotismo e morte, a narrativa vai ao extremo de se tornar pornográfica e grotesca. Uma mão pesada desnecessária que descamba para o melodrama. Fica evidente a intenção de chocar, mas o escritor tem de ter um pouco de mágico e fazer o leitor se surpreender não por aquilo que leu, mas por aquilo que sua imaginação criou.

Isso à parte, Sullivan demonstra amadurecimento na execução daquele que parece ser seu tema eleito: a solidão no mundo contemporâneo. Dos três livros que constituem essa série, Ninguém me ensinou a morrer é, sem dúvida, seu melhor trabalho.

 

 

***

 

 

Livro: Ninguém me ensinou a morrer

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

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