Uma fuga perfeita é sem volta

O personagem-narrador de Da praça da igreja acho que nem Deus vê o mar, de Diogo Brunner, não consegue se fincar por um longo tempo num mesmo lugar.

Analisando os caminhos da própria vida, com a cuca fresca de cerveja, ele anuncia para o dono do bar que irá viajar. Mas de novo?, inquire Seu Zé. Pois é, acho que ainda não fui longe o suficiente, argumenta.

Enche a mochila com algumas peças de roupa, livros, uma máquina fotográfica antiga e o notebook, e, levando uma barraca a tiracolo, embarca num ônibus para Goitacá, cidadezinha litorânea, com praias paradisíacas, ilhotas e reservas de mata selvagem. Um lugar onde não se olha para o alto, define.

A escolha do destino, todavia, não tem nada de aleatório. Foi lá que marcou de esperar Eva, uma jovem com quem teve um rápido relacionamento, porém não consegue tirá-la da cabeça. O acerto foi feito via e-mail, meses atrás. Desde então, desconhece o paradeiro dela.

Mesmo assim não se atormenta. Chega, caminha até à praia, toma algumas cervejas num quiosque, fuma maconha e anota percepções num caderno. Quando uma tempestade feia se arma, busca refúgio na área de um camping, encolhido no interior da barraca.

O domo do terreno chama-se Tomás. Um sujeito cascudo, maluco beleza, que lhe faz a proposta de ajudá-lo na limpeza do local, em troca de moradia e um pagamento.

O protagonista aceita e, enquanto aguarda a chegada de Eva (feito uma versão masculina e riponga da Penélope, da mitologia grega), interage com um elenco de tipos locais e forasteiros, adaptando-se pouco a pouco à dinâmica da cidade, que também recebe eventos culturais aos moldes de Paraty.

Essa é a estreia de Brunner na ficção. E isso se sobressai, no texto, por meio de algumas metáforas desarranjadas e soluções de enredo abruptas.

Por outro lado, exatamente por ser um debute, chama atenção, proporcionalmente, a quantidade de acertos.

O autor tem total ciência da história que quer construir: um romance leve, sem maiores ambições, sobre as experiências pedestres de um sujeito num lugar estrangeiro, sendo ele mesmo estrangeiro de si. Tal procedimento se traduz na linguagem coloquial, desafetada, que emula a forma natural de falar e de agir.

Trabalhando com a simplicidade, é que o romance torna a jornada pelo prosaico imersiva e a ambientação e os personagens que ali transitam verossímeis, ao ponto de a leitura fluir de maneira intuitiva, mesmo que percorra um sentido não-linear de modo a tencionar um arco dramático-existencial.

Os dias correm, os fatos se superam e os atores da trama adquirem dimensão sem que se recorra à inflações psicológicas. A exemplo da vida terrena, ninguém anda com um crachá descrevendo seu temperamento, suas qualidades e seus defeitos. O tempo de convivência se encarrega disso.

Outro aspecto positivo é fazer da banalidade a massa prima do conteúdo. O narrador, sempre em busca de um entendimento astral, enreda-se em divagações e papos cabeças, não raro potencializados pela maconha e/ou pelo álcool. A certa altura, enquanto dois personagens conversam, o próprio autor chama o diálogo de “botecofilosofia”.

No entanto, sob essa camada (proposital) de superficialidade paz & amor, há saídas para discussões interessantes e atuais, a exemplo da extinção do altruísmo, da radicalização do interesse individual, das relações carnais sem afeto, do efeito a longo prazo de um ato de vingança.

O valor da liberdade é, sem dúvida, a mais palpitante. Quais os contratos que nos prendem a um lugar, a um modelo de vida, a alguém. Será que ser livre é escolher qual o destino dar à sua vida ou ser livre é não ter destino? Indagações cujas respostas cabem num romance ou, como diz o narrador, dentro de um copo de cerveja.

Da praça da igreja acho que nem Deus vê o mar se projeta sobre um ponto de inflexão, e revela um autor promissor.

 

 

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Livro: Da praça da igreja acho que nem Deus vê o mar

Editora: Moinhos

Avaliação: Muito bom

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