Vidas que ecoam da repressão

Demorei a gostar da Elis, de Alexandra Lopes da Cunha, estrutura-se a partir de dois planos narrativos que se intercalam, até, por fim, se unificarem.

De um lado, temos a história de Libertad Dias da Costa e, de um outro, a de José Brasil Bataglia Vergueiro.

Ambos irão reconstituir suas vidas, da infância, passada durante o regime militar, até três décadas depois, quando se reencontram, num recorte de tempo montado por meio de um vaivém conduzido por visitações ao passado e pela vivência ordinária do presente.

A fragmentação formal, dessa maneira, também se reflete na articulação do enredo. A autora gaúcha faz, de seu processo de escrita, a engenharia de um puzzle, na qual a ordem dos fatos e as revelações vão se desenhando à medida que a leitura avança e os capítulos se encaixam feito peças.

É uma escolha muito arriscada, pois sempre há a possibilidade de misturar demais as informações a ponto de confundir o leitor. Alexandra demonstra habilidade para escapar do erro, apostando numa narração simples e diligente, cuja motivação é contar as histórias de seus personagens, sem mergulhos psicológicos ou digressões.

Não se trata, contudo, de um texto frio, esquemático. Muito pelo contrário. Os dramas pessoais (os traumas, as angústias, as decepções) fervilham nas páginas. Ocorre que são usados para dar tração à trama, funcionando, de modo operante, como chaves para se ter acesso à partes antes ocultas.

Com isso, as duas histórias são dispostas a exemplo de um jogo de face e de contraface: em alguns pontos, elas se assemelham; em outros, se distinguem, ainda que façam parte de um mesmo núcleo formador, um mesmo contexto, um mesmo mundo recriado.

Libertad (ou Lilith, em certa idade) trabalha no setor de fisioterapia de um hospital. O passado, norteado por uma mãe repressora e um pai complacente, deixou-lhe feridas emocionais controladas à base de terapia e de medicamentos, sobretudo no que se refere ao relacionamento conflituoso com a filha, fruto de uma gravidez inesperada, na adolescência. Desse tempo, traz também o mistério de um tio querido, de militância política contra o regime militar, que desapareceu.

Bataglia é, da mesma forma, assombrado por fantasmas velhos. Filho de um general linha dura, teve a vida abalada por uma tragédia. Refugiou-se nos desenhos, criou um herói muito peculiar e tornou-se quadrinista. O choque que sofreu na juventude, porém, definiu seu caráter e a maneira insensível de agir com as pessoas próximas.

Libertad e Bataglia frequentaram a mesma escola. Uma situação delicada cruzam de novo seus destinos. E esse é o máximo que se pode contar, sem estragar as surpresas.

Conceitualmente, Alexandra trabalha a reverberação em vários sentidos. A realidade que se reverbera na ficção, o passado que se reverbera no presente, a morte que se reverbera na vida, as características sociais, políticas e culturais de um país que se reverberam num microcosmo doméstico.

Não por menos, de todas as expressões artísticas que se toma como referência, a música é a mais atuante. Inclusive, trechos de canções, colocadas em aberturas dos capítulos, exercem uma força simbólica sobre os textos que os sucedem.

Entre ecos e silêncios forçados, Demorei a gostar da Elis decodifica a passagem de duas vidas erráticas através da música, do mesmo modo que recria, a partir de duas famílias disfuncionais, o Brasil que não conseguiu superar os ecos de um período em que era obrigado a conviver com silêncios forçados.

 

 

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Livro: Demorei a gostar da Elis

Editora: Zouk

Avaliação: Bom

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