Contos armados em dobraduras

Os personagens de Acerba dor não estão onde (idealizam que) gostariam de estar. Nos contos do professor Decio Zylbersztajn reside uma força simbólica oriunda de um tipo de assombro decifrado em não pertencimento, uma incompletude insondável lastreada em âmbito externo e/ou interno.

A antologia tem início com o conto-título, no qual uma freira e uma religiosa judia se encontram numa pinacoteca. Aproximadas inicialmente pela interpretação das telas, elas vão descortinar suas vidas regradas pela opressão, entendendo que, embora de diferentes mundos, ambas perseguem uma mesma saída para suas feminilidades.

É uma escrita fina, carregada de significações e delicadezas. Zylbersztajn se utiliza de um recurso muito interessante: os textos são montados em blocos precedidos de uma pequena legenda que contextualiza um local, uma condição ou um ato.

Com isso, o autor consegue manipular o espaço e o tempo dentro dos limites do conto, dando escala para o desenvolvimento da trama.

No lugosiano “Cansado de sangue”, por exemplo, tais frases funcionam como orientações episódicas no cotidiano de um vampiro às voltas com sua mitologia. “O escritor”, que vem em seguida, trata de um autor brasileiro que, no auge da carreira, decide não mais fazer quórum no mise-en-scène literário.

“Troca de pele” traz elementos e referências que serão determinantes na construção das narrativas vindouras. O ótimo “O sétimo ano”, o melhor da coletânea, estabelece um ponto de virada no livro. O foco na dimensão psicológica dos personagens se estende para a atração de temas de natureza sociopolítica.

Desse modo os contos espessam suas camadas, trabalhadas tal o efeito de dobradura e desdobramento. Na prosa em questão, o dia a dia prosaico de uma fazenda é revirado com a chegada de um estranho. Ocorre que essa ruptura contém um segredo que se desvendará uma ruptura maior.

Zylbersztajn ainda dá voz a uma personagem enamorada pela escrita, que estabelece uma reflexão de caráter existencial sobre os desvios da literatura numa ambiência de seres de pés na terra. Será que a gente tem que viver primeiro e escrever depois? Ou viver e escrever são a mesma coisa?

As histórias, então, são transferidas para um território rural, dos largos acres, evocando um tom de época, uma atmosfera de anos atrás. Dos relatos embargados de angústia, sobressaem espectros da ditadura militar, das veias abertas da América Latina, da desconfiguração da herança cultural indígena e dos quilombolas.

Há uma crítica que se adere à ficção e, por ser assim tão precisa, torna-se dispositivo de enredo. Para todo fim, os personagens de Acerba dor aceitam o oposto, cultivando uma expansão de sentido que, à beira de uma chance de mudança, desmonta-se, como quem se cala enigmaticamente.

 

 

***

 

 

Livro: Acerba dor

Editora: Reformatório

Avaliação: Bom

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s