Breves dispositivos da memória

A cidade dorme, de Luiz Ruffato, tem início com uma construção. O conto de abertura, “Minha vida”, transcorre sob o ponto de vista de um menino, cuja família se mudou, há um ano, para uma casa ainda em reforma às margens do rio Pomba, em Cataguases.

O dispositivo do enredo desse primeiro texto é, desse modo, esteio para todo o livro. O município mineiro é a cidade natal do autor, de onde este parece extrair cenas, personagens e percepções do passado, moldando as narrativas a partir de uma matéria que combina a substância da memória com o acabamento da ficção.

Cataguases é ora cenário, ora território de êxodo. O espaço é vivido ou rememorado em narrações testemunhais, em grande parte em primeira pessoa, que posicionam os atores da trama como agentes ativos da circunstância em curso; no cerne de uma dinâmica familiar, movidos por conexões afetivas.

“As vantagens da morte”, que vem em seguida, trata de um homem natural da cidade mineira, que migrou para São Paulo à procura de emprego, e recebe a visita noturna do irmão morto. No conto anterior, o menino comenta que o sonho do pai é torná-lo torneiro mecânico, e mandá-lo para São Paulo junto ao irmão.

E aí está um efeito muito interessante que guia todas as narrativas. Cada conto parece carregar elementos e/ou impressões emprestados do conto vizinho, estabelecendo uma sensação de unidade durante a leitura. Num outro texto, fala-se da camisa listrada de um time, que ressurge num momento mais à frente.

Tal condução subjetiva é também uma forma de dar identidade ao livro, já que muitos contos não traçam um arco narrativo, funcionando como reproduções de momentos. Isso fica bem ilustrado quando os temas se desgarram dos limites domésticos e ganham escala em contextos sociopolíticos, transportando as histórias para o terreno da violência urbana, do homem rural transfigurado pela metrópole, dos ímpetos da classe média e, sobretudo, do período da ditadura militar instituída em 64.

O conjunto de contos que tem início com o excelente (e trágico) “Água parada” compõe um imersivo painel do governo militar, por meio de personagens situados em lados opostos do conflito armado e/ou ideológico, a exemplo do matador que tem a missão de “desaparecer” com um religioso.

Na parte final, o autor aposta em experimentações formais; o que tira um pouco da força do livro, contudo a consistência da linguagem, o apuro na ordenação das frases e as transições de discurso mantêm inabalável a qualidade artística. Em A cidade dorme, Ruffato espia dentro de si e enxerga algo maior.

 

 

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Livro: A cidade dorme

Editora: Companhia das Letras

Avaliação: Bom

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