Contra a pátria de chuteiras

Foi Nelson Rodrigues quem disse que “muitas vezes é a falta de caráter que decide uma partida; não se faz literatura, política e futebol com bons sentimentos”. Um raciocínio oblíquo que representa precisamente as frentes de motivação de A cobrança, romance de Mário Rodrigues que já se consagra como um dos melhores lançamentos do ano.

O palco dramático é uma partida de futebol – ou melhor, A partida de futebol. Final da Copa do Mundo na Rússia, julho de 2018. Brasil versus Alemanha. Depois de dois tempos sem gol, a decisão será resolvida nos pênaltis. O placar mostra 5 a 4 para os alemães. Caminha, então, para a última cobrança o capitão brasileiro.

Seu nome é Saúva, o protagonista do livro. Saído da base de um time pobre de Sergipe para o suntuoso Schalke 04, da Alemanha, o volante carrega sobre os ombros até a marca da pequena área o peso de uma infância de feridas físicas e psicológicas ocasionadas pelo Brasil da corrupção, da roubalheira e da desigualdade, que sempre lhe deu as costas e foi o causador das tragédias que determinaram as rotas tortuosas de sua vida.

De modo que ele faz o gol e segue com a chance da seleção de ser hexacampeã mundial, ou perde o pênalti de propósito numa forma de vingança contra seu país.

Tendo o dilema como eixo, o romance se estrutura a partir de três linhas narrativas que se alternam continuamente. Os segundos que antecedem a cobrança, os acontecimentos político-sociais que determinaram os últimos 30 anos do Brasil e a vida particular do personagem principal, do nascimento até o presente.

Saúva nasceu no mesmo ano que a Constituição de 1988. Prosperou junto a abertura política, a eleição direta para presidente, a vitória de Collor, em 89. O que veio em seguida, porém, foi o confisco da poupança, o desastroso plano econômico da Zélia Cardoso, a história do Fiat Elba, as declarações do irmão do presidente, PC Farias, o impeachment de Collor, Itamar Franco, o Plano Real, FHC, até chegar ao mesmo candidato que tinha perdido a eleição 14 anos atrás.

Todos esses fatos de ressonância coletiva serão canalizados para a vida doméstica do menino que ainda não se imaginava jogador de futebol. Filho bastardo de um caminhoneiro, foi adotado por um homem que assumiu a sua guarda, quando a mãe revelou-se adúltera e o abandonou.

Tal qual os regentes da pátria, depravados em seus aspectos morais, a própria mãe o trocou pela imoralidade. Esse é um dos muitos paralelos que a trama irá alinhavar durante todo seu processo de composição, espelhando esse dois espaços (mundano e pessoal) num reflexo torpe cujo decaimento será determinante para a decisão final.

Além de um argumento original e atualíssimo, Mário Rodrigues demonstra domínio técnico para diversificar a linguagem e a forma. Os pensamentos na marca do pênalti ocorrem num instante quase congelado, com uma oralidade remansosa, abstrata. Já o remonte da história brasileira tem a característica da crônica, ao passo que a narração da história familiar do protagonista se desenvolve no curso de uma jornada, como se fossem fragmentos de uma novela.

Ao fim, as três partes se encaixam com perfeição, provocando, inclusive, um autoquestionamento no leitor. O futebol é usado como a alegoria exata do Brasil. Os trambiques, as viradas de mesa, a deslealdade em campo, o vilão que tem a chance de ressurgir herói, o juiz que sempre favorece o time mais forte.

Mas também o futebol é o ópio do povo, e aí está a grande sacada do livro. Será que devemos colocar de lado as mágoas, as injustiças, o descaso, as mortes e nos abraçarmos todos, entoando para frente Brasil, salve a seleção? A conquista de uma Copa do Mundo nos permite ser apáticos e iludidos?

Voltando ao genial Nelson Rodrigues e suas frases espirituosas, certa vez ele afirmou que “o futebol é passional porque é jogado pelo pobre ser humano”. Mário Rodrigues converteu essa constatação em literatura e fez um golaço.

 

 

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Livro: A cobrança

Editora: Record

Avaliação: Excelente

2 comentários sobre “Contra a pátria de chuteiras

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