Relato de uma busca pelo outro

O indizível sentido do amor é uma incessante peregrinação por espaços internos e continentais. Em seu novo romance, Rosângela Vieira Rocha dá voz a uma personagem que se lança numa investigação biográfica, compondo um dos mais potentes exercícios de alteridade da literatura brasileira.

A estrutura manobra o espaço e o tempo, de forma randômica. A própria narradora confirma ser esta “uma história escrita às avessas, de trás para frente”.

Neste caso, o fim é o ponto de partida. A morte de José, seu marido. A pessoa de interesse.

Tomada por “um desejo, uma necessidade, uma urgência, quase obsessão”, a personagem compra uma passagem de avião para Lisboa, de modo a desvendar o passado do marido, o período de sua juventude em que esteve preso por conta da militância política.

Encontra-se com um ex-padre português, que atuou como professor universitário no Brasil, porém se desligou da Igreja, nos anos 1960, por questões ideológicas. Foi sequestrado pela polícia do regime militar e passou por seis cadeias num período de nove anos.

Ele fará um relato detalhado dessa experiência brutal, período em que conviveu com José. A série de torturas sofridas por ambos nas dependências do DOPS e do DOI-CODI, seguida da passagem pela cadeia da Ilha Grande, um local infestado de ratos e insetos, onde o “clima era de horror o tempo todo”.

Ocorre que cada descoberta, cada descortinamento de mistério, funciona como gatilho para lhe arremessar contra o próprio passado.

A narradora revive o maravilhamento do primeiro encontro com José, o namoro e a formação acadêmica, os momentos contraditórios de desatamento e de reencontro, o casamento, a fase em que moraram em Salvador, as viagens pela Patagônia argentina e pelo continente europeu.

Na meia idade, José foi diagnosticado com espondilite anquilosante, doença crônica que causa a inflamação das articulações e ruína de órgãos vitais, a exemplo do coração e dos pulmões. Os sintomas resultará numa longa e dolorosa internação. E esse estágio dramático, na cela da UTI, ocupará grande parte do livro.

De fato, Rosângela constrói um drama genuíno, em todos os seus aspectos elementares, em todos os seus catalisadores emocionais.

A escritora mineira tem um estilo intenso e maduro, ordenando frases bem cuidadas que evocam o livre pensamento, o resgate de fatos que se aglutinam numa espécie de confidência. Um efeito que insere a narrativa na categoria dos romances que se acomodam entre a verdade e a imaginação, potencializando a humanidade de sua narradora.

Isso se dá, também, em sua função do encaixe engenhoso entre memória e acontecimentos históricos. Fica evidente o trabalho pesado de pesquisa que antecede a escrita, contudo as designações políticas, os retratos da sociedade e as referências culturais são empregados com harmonia, a serviço do tratamento ficcional.

Pode-se ainda traçar uma grande metáfora entre o mal respiratório que matou José e o sufocamento praticado pela repressão política.

É um romance muito rico de sentidos e interpretações, afinal, que se utiliza da recomposição de uma época como pano de fundo para esculpir uma penetrante declaração de amor, um arroubo afetivo que não se contém ao período em que se compactuou o sentimento.

As emoções não se repetem, é a memória que vai buscá-las, atenta a narradora.

Em sua viagem existencial pelo outro, o conhecimento se torna a abertura de caminhos para o significado mais profundo de autodescoberta.

 

 

***

 

 

Livro: O indizível sentido do amor

Editora: Patuá

Avaliação: Muito Bom

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