Representação da própria vida

Luiza, a protagonista de A natureza das coisas, saiu de casa para viver o sonho de ser uma atriz famosa no Rio de Janeiro.

Forasteira e sem dinheiro, sobrevive como pode, muitas vezes por meio de favores, até conhecer o fotógrafo Cássio.

Descendente de alemão, Cássio estudou na Suíça, porém tomou outro rumo na vida também para seguir uma paixão.

Foi para Nova Iorque se especializar em fotografia e, a contragosto dos pais, mudou-se para São Paulo, onde morou de favor e tirou fotos de bois por um ano, até ser contratado por uma prestigiada revista carioca para fotografar ensaios de moda e mulheres nuas.

Cássio agora vive num apartamento no bairro de Santa Tereza, e leva Luiza para morar com ele.

Como o namorado está normalmente viajando, Luiza regula seus dias entre testes para elenco e andanças pelo centro da cidade, que não custa terminar num bar na Lapa.

Quando Cássio retorna, o sexo norteia o relacionamento, pausado apenas para que ele conte detalhes de seus trabalhos pelo Brasil e pelo mundo.

Em duas dessas produções, leva a namorada consigo. No final de uma sessão de fotos no Pará, Luiza é presenteada com um filhote de cobra por uma índia.

Em seu segundo romance, Marília Passos dá forma a dois personagens que buscam pertencimento através de representações de mundo. Enquanto Cássio se vale de suas fotografias para constituir sua identidade, Luiza busca, no disfarce da interpretação cênica, amainar a inquietude de estar, sem realmente conseguir ser de um lugar.

Mesmo quando tenta construir uma perspectiva por meio do olhar do namorado, o resultado não a conduz a uma transformação de fato.

Uma cena emblemática é o almoço na casa dos pais de Cássio. Luiza observa, com admiração, a postura elegante da mãe do namorado, mimetiza alguns comportamentos da alta classe, contudo não consegue converter a experiência em algo particular, pois se entende estrangeira naquele universo.

A autora, dessa forma, mantém sua história em constante deslocamento, da mesma maneira que se encontra internamente sua protagonista.

Tal efeito evidencia a falta de um fio condutor claro, entretanto potencializa uma atmosfera de alheamento, uma espécie de ambientação onírica que externiza a incapacidade de Luiza de decifrar os domínios de sua própria natureza.

Marília Passos opta pela esgarçadura da forma, embora a segurança com que escreve proteja o sentido da unidade romanesca. A dimensão que dá ao princípio de existência de seus personagens compreende a uma ilusão de propriedade, que se configura numa bela cena final.

 

 

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Livro: A natureza das coisas

Editora: Labrador

Avaliação: Bom

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