Personificação do submundo Brasil

Parceiro, às vezes tua vida envereda por caminhos tortuosos, se não tomares cuidado tu perdes ela de vez. Graças a Deus, a cocaína me salvou. Não fosse ela eu estaria frequentando missa aos domingos.

A fala acima, carregada por um tanto de heresia e muito de hedonismo, é de Branco, personagem que empresta nome ao romance de estreia de Ana Paula Bez. Trata-se de um Zé-ninguém, um desses caras que passam o dia enfurnado no bar, ganhando a vida como pode e metendo-se em confusões rasteiras.

Tenho certeza de que o leitor conhece e já ouviu falar de alguém assim.

O caso é que Branco é viciado em cocaína, e a dependência somada ao seu incontrolável hábito de se relacionar com várias mulheres (mesmo que casado e pai de uma adolescente) o coloca numa situação das mais penosas, e o que lhe resta é pedir abrigo na casa da mãe, na Florianópolis que o viu crescer sem inocência.

Branco chama a mãe de Velha Gaviona, um mulher venenosa, que ergueu uma mansão com a herança do marido. O Velho, como ele se refere ao pai, é a única pessoa que realmente gostou, que o tratou com afeto, quando a mãe sempre o repeliu por ter sido um temporão que só não foi abortado pois temeu as consequências da intervenção no corpo com idade avançada.

O preferido da Velha Gaviona é Elias, a quem Branco odeia e inveja por um motivo que não cabe aqui mencionar. O irmão ficou milionário envolvendo-se em maracutaias de políticos, desviando dinheiro público através do superfaturando de material hospitalar.

Por ordem de Elias, Branco se torna um pau-mandado que realiza serviços sujos. Acaba tenho de executar uma missão em São Paulo, de onde escapa para o Rio. Mais à frente, uma sequência de casos e acasos, de overdoses de droga e sexo, acaba por levá-lo a Porto Velho, onde sua saga desmantela-se num fim que se revela o começo.

Temos aqui uma história sem núcleo, cuja potência não se encontra na montagem dos eventos. Ana Paula Bez se dedica a imprimir verdade na voz de seu narrador, marcada por gírias regionais, palavrões e cacoetes, e impressiona como a narrativa flui de maneira intuitiva, com a sonoridade de um relato prosaico ao invés de um texto de ficção.

A autora consegue se esconder por detrás da narração de um homem, modulando pensamentos machistas e perversões com naturalidade e crença.

Branco não tem nada a perder, portanto se entrega aos prazeres mais descartáveis, trafega por “um mundo onde a verdade tem que ser escrachada, escancarada, exposta na vitrine”.

Ana Paula Bez coloca seu personagem mulherengo, cafajeste, malandro ao mesmo tempo que medíocre de tão ingênuo, em situações em que trabalha essa bipolaridade de temperamento para abordar questões maiores (traição, desleixo, corrupção, vícios, promiscuidade) por meio desses tipos que não primam pela intelectualidade.

Branco, no fim das contas, pode ser decifrado como a personificação de um submundo que rege o Brasil e está longe de se reabilitar.

 

 

***

 

 

Livro: Branco

Editora: Benfazeja

Avaliação: Bom

Um comentário sobre “Personificação do submundo Brasil

  1. Escritora Ana …
    A apresentação despertou a leitura do … Branco.
    Na literatura tenha uma carreira , feliz, criativa , humorada e leve como Pó.
    Vou viajar na leitura.

    Bjs.
    Livro: Mintchura
    Neuzinha Brizola.
    É a dica.

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