Controversos em tempo de patrulha

Cólicas, câimbras e outras dores é um livro explosivo em tempo de patrulha, de opiniões extremadas e condenações sumárias.

Os contos do livro de estreia de Michel de Oliveira trazem circunstâncias envolvendo incesto, pedofilia, estupro, zoofilia, além de contextualizar a mulher em posições escandalosas de rebaixamento moral, aquelas em que a violência e a humilhação são assimiladas com uma aceitação repulsiva de fêmea inferior.

Para se ter uma ideia, o primeiro texto traz uma personagem com um pênis entalado na garganta, sem saber qual destino dar ao esperma.

Seria facilmente uma peça de repúdio pelo movimento feminista (o que se faz intrigante, já que duas mulheres comandam a editora que a publicou). Ou, talvez, é o caso de o autor expor essas situações com tamanha agressividade, justamente para pôr em evidencia a necessidade de atacá-las?

Não sei. Na condição de crítico, acredito que não posso entrar nesse âmbito do debate, tampouco em qualquer outro que não se refira ao conteúdo literário. Esse é um espaço em que se examina a qualidade da obra, sem permitir que as opiniões pessoais contaminem a análise técnica.

Dito isso, temos um livro regular em razão das escolhas formais que toma.

Separado em três seções, há um encadeamento ininterrupto de contos precedidos por nanocontos que, salvo uma ou duas sentenças, não funcionam. Assemelham-se mais a vinhetas ou a pensamentos do dia que ora soam como piadas de gosto duvidoso, ora como disparos de pieguice.

Os contos, por outro lado, saem-se melhor. Embora siga a mesma fórmula (1. ambientação do conflito. 2. o conflito. 3. a surpresa), o autor consegue articular a ideia central, empreendendo vitalidade para os atores da trama possuídos por desejos sórdidos ou por compulsões animalescas.

Nada que não tenha sido emprestado de autores como Rubem Fonseca ou Sérgio Sant’Anna, contudo empregado de forma mais bruta, mais propositalmente contundente.

A força de intenção não está no instrumento ficcional, e sim no que se anteviu como alvo desse instrumento. O autor se mostra absolutamente ciente de que tem em mãos um material polêmico e potencializa essa polêmica com um desprendimento furtivo, um “vamos ver o que acontece”.

Ninguém escreve, embebido na mais pura inspiração, a história de uma mulher diariamente abusada/currada pelo marido obeso, com o qual tem um filho com severo retardo mental, e, logo após de se tornar viúva, inicia uma relação carnal com esse filho, pois sente a necessidade da completude antes proporcionada pelo coito.

Comparado a Cólicas, câimbras e outras dores, o artigo assinado pela atriz francesa Catherine Deneuve é pinto. E digo isso, obviamente, de forma não literal.

 

 

***

 

 

Livro: Cólicas, câimbras e outras dores

Editora: Oito e Meio

Avaliação: Regular

Um comentário sobre “Controversos em tempo de patrulha

  1. Alguns detalhes sobre os contos citados na critica merecem ser sublinhados. Talvez tenham sido ignorados pelo horror que alguns contos parecem ter causado. O primeiro conto, por exemplo. A moça não é uma pobre coitada, ela decide o que fazer com o que tem na boca e ainda o faz ativamente. No fim apresenta certa compaixão ou pena, pois compreende que a ejaculação é o pouco que o pobre homem tem pra oferecer, depois dela ter decidido comandar a cena com destreza, prazer e sem culpa cristã. E a viúva do gordo não é abusada, mas adora trepar com o marido e fica chateada quando ele não a procura. A submissão é encenada para provocar a frágil libido do homem, já que as delas estão sempre ali, pulsantes. É um truque feminino, utilizado desde que homens decidiram que não temos desejos e vontade própria. Temos desejos intensos e não somos frágeis. Essas personagens que você menciona não são pobres coitadas, elas só assumem esse papel porque os homens não conseguem vê-las como quem pode sentir prazer e dissimular, mas como frágeis criaturas passíveis de abuso e sem tesão. Não é à toa que mulheres publicaram o livro e leitoras estão se deliciando.

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