Uma voz que reverbera no imaterial

O narrador de O relógio e o violino está preso em seu próprio corpo. Paralisado sobre um leito de hospital, sua comunicação com o mundo se dá através do curso bravio de sua consciência, um caos palavroso e sinestésico, constituído por perturbações internas e reações à presenças externas.

A afluência de sua voz é marcada por um contínuo tique-taque. Uma contagem regressiva indistinta, porém exata quanto ao seu destino. Gustavo Simões, o protagonista, só tem a certeza da morte. Seu quadro é irreversível. Passado, presente e futuro não se distinguem mais. Está no agora, num frágil agora que, num sopro, torna-se nada.

Assim, de uma maneira agressiva, amarga e assombrosamente lúcida, reflete sobre sua condição e “interage” com aqueles que surgem à sua volta. A esposa Clarissa e os filhos Rogério e Alice. O arredio vizinho de leito, Valdemar. A médica-residente Gabriela, por quem constrói uma paixão.

Há ainda Marcos, que cuida de seu asseio e da administração de medicamentos. O enfermeiro é homossexual e detalha suas aventuras para Gustavo, que tece observações afiadas naturalmente sem interlocutor. Lembra, tomando as devidas proporções, a relação entre os personagens Roy Cohn e Belize, no drama teatral Angels in America.

Os acessos que estão à margem do exílio do narrador funcionam, portanto, como catalizadores de lembranças, percepções e capturas da rotina hospitalar. As histórias que não são suas passam a ser tragadas para esse espaço imaterial tomado por associações de palavras e cruzamentos de sensações, e convertidas em dispositivos existenciais.

Em seu quarto romance, Márcio Leite se utiliza de uma estratégia narrativa que se assemelha a usada por Machado de Assis, em Memórias póstumas de Brás Cubas. O enredo se sustenta sobre um tempo psicológico, em que cabem a ordem desfigurada dos fatos, digressões e experiências de caráter metafísico, e sobre um tempo cronológico no qual se apreendem o passar das horas, as decisão práticas e as eventualidades que lhe atacam com instantes de ternura ou de absoluto espanto.

O autor baiano se presta a conformar seu personagem a partir do que este revela sobre si e de seu estado físico. Não é fácil engajar o leitor numa narrativa sem recursos adicionais, mas Leite encontra uma flexão muito singular, combinando um naturalismo quase testemunhal (o autor é médico de formação) com achados líricos.

É possível viver/sentir o desespero do homem trancado em seu próprio corpo, gritando sem nunca ser ouvido, destruído por prender sua família num luto sem a morte de verdade. Gustavo era violonista, dono de um valioso Guarneri del Gesù, repassado por gerações desde seu bisavô, e lhe atormenta o fato de não ter transmitido o legado da música para o filho. O relacionamento com Rogério foi marcado por distâncias, mas será justamente do desconhecimento que imergirá uma surpresa.

A interação com os familiares, aliás, constitui os melhores capítulos. O narrador rememora (e analisa) o casamento, a paternidade, as falhas e as correções. A gratidão pelo que Clarissa lhe proporcionou permite que perdoe a esposa de um ato (muito) questionável. Por outro lado, o contato com a pequena Alice coloca o relato sob uma perspectiva pueril, com uma linguagem mais delicada, recorrendo à significações lúdicas.

A morte me reaproximou de Alice, conectou-nos num nível muito melhor. Fica mais fácil agora ser criança outra vez, quando não me restam mais papéis a desempenhar. É curioso. Agora que já não consigo ser pai, compreendo melhor a minha filha. Essa é apenas mais uma surpresa que a morte guarda.

Existem alguns problemas, porém. Embora nitidamente queira fixar a imobilidade do personagem, algumas cenas se repetem e o discurso fica dando voltas para voltar a seu ponto de origem. Com algumas páginas a menos, seria um romance mais bem acabado, com um arco de transição mais sólido.

No fim, Leite toma duas decisões perigosas. O relato expositivo, realista, transforma-se em algo etéreo, um deslocamento para uma perspectiva sublimada. O autor também implementa uma discussão acerca da morte sem sofrimento, um tipo de ligação afetiva que se conecta à finitude.

Ambos funcionam. E o romance tecnicamente termina bem, extraindo beleza de um tema tão soturno.

 

 

***

 

 

Livro: O relógio e o violino

Editora: Penalux

Avaliação: Bom

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