Uma luz que se deita sobre o tempo

De âmbar e trigo, de Nanete Neves, começa com uma tragédia. Na mineira Araguari, em 1975, um incêndio numa casa poupa a vida apenas da pequena Nikolina. O fogo causado pela explosão de botijões de gás vitimou fatalmente seus pais e sua irmã gêmea.

A história, então, recua, para o ano de 1968. Na mesma cidade, desembarca um casal de tchecos, fugidos da invasão soviética. Vadim e Larissa Litinov são recepcionados pelo padre Lino (também natural da Tchecoslováquia), que providencia moradia, roupa e comida, e a aprendizagem do idioma através de uma professora.

Com a adaptação à dinâmica local e a ajuda de conterrâneos da Europa, Vadim começa a trabalhar no comércio de pedras preciosas. O casal melhora de vida e, logo, Larissa engravida. O parto é difícil, e dele nascem duas meninas. As gêmeas Nadja e Nikolina.

A novela daí salta para a terceira linha temporal em que se desenrola. Em Cascalho Rico, nos anos 2000, o fazendeiro Domingos Camarinha, sujeito rude, de poucos palavras, acaba de ficar viúvo. Solitário e com muitos afazeres, espalha a notícia de que está à procura de um capataz e de uma caseira.

Depois de quase desistir da contratação, surge Dido, um empregado ágil, forte e cuidadoso com os animais. Dido indica sua esposa para a vaga de caseira. Ainda que nunca tenha trabalhado, Nenê é solícita e empenhada, embora seu silêncio pesado pareça guardar um segredo.

A trama recua de novo à década de 70. Depois de se recuperar das sequelas do incêndio, Nikolina é adotada por duas solteironas, Mira e Benê. Ganha o apelido carinhoso de Nenê. O zelo e o afeto, porém, não lhe desfaz o semblante soturno. Descobre-se que Nikolina conversa com os mortos. Mais à frente, esse poder sobrenatural será usado na cura de pessoas. De modo que passa a ser conhecida, em todo Triângulo Mineiro, como “Nenê Benzedeira”.

Nanete estrutura seu enredo a partir desses fragmentos que são as visitas intermitentes a esses momentos que abarcam a existência de sua protagonista. Outros personagens – e até as próprias rotinas das duas cidades – ganham relevância a reboque, mas são presenças circunstanciais nesse modo de escrita panorâmica.

O leitor é ajustado na posição de mero observador desses acontecimentos, sem nunca alcançar de fato suas maquinações subdérmicas. Parece uma daquelas histórias contadas entreouvidos, que adquire conotações distintas dependendo do narrador, e se estabelece parte da mitologia regional.

A matéria aqui é a massa dos dias, o avançar da vida em seu engenho mais elementar, produzindo encontros sem o espanto da casualidade. Tanto que a grande reviravolta, guardada para o fim, não provoca qualquer reação de impacto. O ritmo não permite.

De âmbar e trigo é bem escrito, oferece uma leitura sem incômodos, porém é conduzido sob uma luz tênue que resiste só até o ponto final.

 

 

***

 

 

Livro: De âmbar e trigo

Editora: @link

Avaliação: Regular

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s