Nos bastidores do governo Vargas

A primeira coisa que salta aos olhos, durante a leitura de Última hora, de José Almeida Júnior, é a ousadia. Em seu livro de estreia, o escritor potiguar não se limita a visitar uma parte da história do Brasil, e sim recriar esse recorte de tempo em seu detalhismo mais ordinário.

A vida prática se mistura a acontecimentos de repercussão nacional, alimentando um processo de escrita circunferente no qual o transporte da realidade para a ficção visa instaurar um simulado de mundo que imprima toda a plasticidade que há em sua origem.

O triunfo de Almeida Júnior está em manipular o real a serviço da imaginação sem que este perca seu caráter de verdade. Assim, seus personagens (como é o caso da maioria dos romances históricos) não são meras testemunhas, mas agentes determinantes deste universo, interagindo com figuras reais para fazer a História como a conhecemos.

O narrador aqui é Marcos, um jornalista ligado ao Partido Comunista Brasileiro, que assina textos críticos no carioca Impressa Popular, veículo com convicções de esquerda.

Passam os anos 1950, e seu alvo de ataque é o governo do presidente Getúlio Vargas. Além de considerar o mandato em vigor ilegítimo, a aversão vem de duas décadas, durante o Estado Novo, período em que combateu e foi duramente perseguido pela ditadura de Vargas.

Eis que Marcos é procurado por Samuel Wainer. O ambicioso jornalista lhe confidencia que está montando o vespertino Última Hora e lhe convida a fazer parte da equipe. O objetivo é apoiar o presidente, atolado em turbulências políticas, e ser um rival do império midiático de Assis Chateaubriand, declarado opositor ao governo.

Marcos, a princípio, recusa de maneira veemente (Não vou trabalhar para aquele ditador), contudo o ambiente familiar desmonta suas certezas ideológicas. Com o salário atrasado, dívidas, e a mulher e o filho quase passando fome, acaba aceitando a proposta de Wainer (…um revolucionário não podia se dar o direito de construir família).

A partir daí, o romance se divide sensivelmente em dois núcleos: a redação e a casa, que se alternam em capítulos fechados ou no interior de um mesmo capítulo.

No primeiro núcleo, apresenta-se os bastidores da criação do jornal, as influências e o jogo político, o exercício da profissão sob interesses escusos. Marcos interage com Wainer e ocasionalmente com Vargas, então perseguido por Carlos Lacerda, proprietário da Tribuna da Imprensa e membro da UDN, partido de orientação conservadora.

Em primeiro momento, alegando defender o Última Hora e o viés populista de Vargas, Marcos se torna um combatente de Lacerda, porém o avançar da trama vai revelando seu lado desonesto, seu lema indigno de agir em favor dos próprios interesses, que trará consequências incontornáveis para a história do jornal e a do país.

O mesmo ocorre em casa. Casado com Anita e pai de Fernando, o jornalista tem de conviver com as cobranças da esposa e as provocações do filho. Marcos quer que Fernando trabalhe, embora este se negue, partindo do princípio de que seu melhor amigo (filho do dono da mercearia, sujeito que Marcos despreza) não precise. O adolescente pretende ingressar na Escola Militar, ridiculariza a ideologia comunista do pai e apoia Lacerda. Quando confrontado, é protegido pela mãe.

Marcos busca refúgio em drogas. Um de seus colegas de redação é Nelson Rodrigues. Dramaturgo ainda em início de carreira, o repórter de futebol é escalado por Wainer para escrever uma coluna de apelo mais popular. Nasce “A vida como ela é”, sucesso imediato entre as leitores, que congestionam o telefone com ideias para os contos. A boa lábia de Nelson também seduz Isabel, a voluptuosa secretária do jornal. Mais à frente, entre brigas e reatamentos, o casal formará um triangulo amoroso com Marcos.

É interessante como Almeida Júnior consegue trabalhar dois recursos, de pesos distintos, com a mesma organicidade. Apesar de palavroso e constituído de muitas informações técnicas e dados históricos, o trabalho (impressionante) de pesquisa se encaixa com naturalidade na trama, servindo de motor para a jornada do protagonista.

Quando focaliza a intimidade de seu narrador, o autor flerta com a intertextualidade. Os conflitos domésticos, as corrupções e as angústias, a chegada da jovem amante, a vida dupla bebem do universo consagrado por Nelson Rodrigues, especialmente em “A vida como ela é”. Funciona como um tipo de exercício em que não apenas a realidade substancia a ficção, mas a própria ficção serve para conduzir a ordem desse microcosmo ficcional.

Está longe de ser fácil e corre o risco de se tornar um texto excessivamente didático, introspectivo e maçante. Não é o caso, aqui. Almeida Júnior demonstra uma habilidade incrível para um estreante, com técnica afiada para construir diálogos que fluem de maneira intuitiva e um arco dramático cujo estofo é a História que está nos livros, todavia assistida por um viés inventivo, um final que consegue segurar uma surpresa retumbante.

Última hora venceu o Prêmio Sesc de Literatura 2017, na categoria romance. Merecidíssimo. Recria, com intensidade e coerência, um momento da política do Brasil que se repete nos dias de hoje, ou um que nunca deixamos de verdade, que nunca deixaremos de fato.

 

 

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Livro: Última hora

Editora: Record

Avaliação: Excelente

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