Mural de ossos insculpido na parede

As duas primeiras estrofes que compõem o poema “Indisciplina” carregam, em seus dilemas anacrônicos, a força de motivação da antologia Observatório do caos, do premiado autor mineiro Ronaldo Cagiano. Assim diz: O menino que fui/é hoje meu contemporâneo//O homem que sou/é o estrangeiro que me visita.

Sem o espanto do tom sentimentalista, estamos diante de um sujeito-poético que resgata sua representação pretérita para se autorreconhecer num mundo no qual já não estabelece pertencimento. O espaço da memória guarda as imagens e os símbolos que constituem seu registro identitário (a cidade natal, a casa da infância, o relicário familiar), ao contrário da existência corrente em que o mundo atual não passa de uma soma de desordem, de som e fúria, de caos.

O poeta busca asilo em suas referências para abraçar um sentido, todavia visitar o passado é também uma forma de transfigurá-lo.

Cagiano traça dois pontos de vista muito bem definidos em seu retorno aos versos, confrontando a matéria que extrai das lembranças com os estilhaços da vida urbana, violenta, de “utopias sem destino” e sequências de “um duelo terrorista contra o nada”.

O íntimo e o mundano guerreando nessa matriz indócil de palavras, no qual o baú de ossos e os fantasmas pessoais têm mais vida que as dores sintéticas recriadas pelo apelo cibernético que não sangra plasma, que choca na moldura do plasma por apenas alguns segundos.

O espaço e o tempo são descartáveis e inassimiláveis, e o território que se deseja estar é o que carrega, imutável, em si.

Neste caso, Cataguases, interior de Minas Gerais. Depois de um livro de contos e um romance (escrito em parceria com Eltânia André, sua esposa), o autor transforma novamente seu cenário de origem em fonte para o ofício de (re)criação.

Sua própria vivência se confunde com a da cidade, o curso memorialista é o trânsito remansoso por ruas de terras e estradas à beira do rio Pomba, de mãos dadas com o menino que foi e que morreu ao deixar para trás o que busca agora resgatar com olhos de homem. De modo que o encantamento se rareia na percepção do atraso que comanda a rotina dos moradores, na frequência das enchentes que afogam as casas e constituem um interminável inventário de perdas.

No entanto, contra todos os infortúnios, o narrador sabe que ali está a raiz de sua biografia, a costura de acontecimentos que não se parte nos dentes da “moenda do tempo”. Lembra o verso iconográfico de Walter Whitman: Eu sou o homem, eu sofri, eu estava lá. A poesia nasce por onde esteve.

Tudo rutila e se enegrece a partir do olhar desse observador capaz de espiar em seu próprio interior, ao mesmo tempo que se debruça sobre o globo aberto em suas fraturas geográficas e humanas. A potência das frases, naturalmente, decorre da articulação da oralidade que se traduz numa métrica inconfundível, quase sem o uso de rimas, prosaica e coloquial, mas que imprime seu lirismo magnético pelo uso de um vocabulário rico e de imagéticas associações sintáticas.

A arte da escrita evolui nessa prosa divagadora, repleta de silêncios e de achados de linguagem, que se estende em versos mais longos, cadenciados pela formação narrativa que por um átimo não se assume conto, mas que sabe também se condensar num disparo de duas ou três palavras que concentram grande intensidade.

O poeta demonstra um senso crítico agudo na mirada do presente onde “já não se fazem revoluções/como antigamente”, em que as ideologias foram pulverizadas pela barbárie que retroalimenta a barbárie, no qual a extinção dos valores morais e éticos se traduz numa “pátria de cupins”. Não há mais salvação. Sequer divina, como descrito no forte poema “… onde estava Ele,”. Onde está Deus?//cujo poder não exercita?/cuja vontade não realiza?/cujas bênçãos nunca vêm?//Onde está Deus que não faz nada?.

Tal abordagem nietzscheriana expõe o esvaziamento de sentido na sociedade contemporânea, um amontado de escombros destituído de esperança, encarcerado a “um século sem rumo” onde “sepultaram a memória”. Sonhar é o acidente. E o autor, ainda que em sua própria unidade de tempo, contamina-se desse aspecto soturno, versificando seus anseios, seus pesares, suas indignações e seu cotejo com a finitude, em andanças que nunca apontarão um porto seguro, pois sempre “está distante, mesmo tão perto”.

Cada dia perco a virilidade dos anos/cada tempo é uma nova sepultura/onde multiplicam-se os fósseis/daquilo que não vivi.

Cagiano dá forma a um livro em que desnuda o mundo e a si, em seu próprio mundo. Um trabalho que expressa propriedade, mas, especialmente, manejo criativo em operar em pleno caos de modo a manifestar em cada um desses fragmentos a força alusiva de um todo.

 

 

***

 

 

Livro: Observatório do caos

Editora: Patuá

Avaliação: Muito Bom

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