Sete manhãs de sábados com Bioy Casares

Em 1932, você conheceu Borges. Eu me aproximei dele e nos falamos, contextualiza o entrevistado. Claro, Borges não era o que foi depois. Você já o conhecia?, insiste o entrevistador. Sim, sabia que ele existia e o lia. Para mim, a verdade é que eu não gostava de seus poemas. Não, eu não gostava. Mas de alguns de seus ensaios, sim.

O Borges citado é ninguém menos que Jorge Luis Borges, um dos mais importantes escritores de todos os tempos. Construtor de um universo particular (vide o grandioso Borges babilônico – Uma enciclopédia, de Jorge Schwartz e Maria Carolina de Araújo), a obra do argentino é fonte de influência para a literatura contemporânea mundial. Sendo assim, quem teria a estatura para apontar a má qualidade do seu texto, para relatar tal encontro com tamanha naturalidade?

A resposta está em alguém tão gigantesco quanto ele. Um conterrâneo e amigo fiel, que acompanhou bem de perto a edificação de sua obra, que dividiu com Borges (mais Silvina Ocampo) a organização de uma das coletâneas fundamentais do século XX, a Antologia da Literatura Fantástica, considerada a bíblia do gênero.

Trata-se de Adolfo Bioy Casares. Contista e romancista, autor da obra-prima A invenção de Morel, morto em março de 1999. O trecho acima foi retirado de uma das entrevistas que compõem Sete conversas com Adolfo Bioy Casares, do professor de literatura e escritor portenho Fernando Sorrentino (tradução de Ana Flores).

O registro dos diálogos, como explica o autor, ocorreu durante sete manhãs de sábados, na casa do próprio Casares, em 1988. O tom descontraído, ora marcado pelo pendor analítico ora pelo confessional, mostra um entrevistado relaxado, disposto a responder sobre qualquer assunto, desprovido de soberba diante do prestígio continental que gozava aos 70 anos. Casares fala com gana, com humor e sem rodeios, expressando um conhecimento pastoral sobre a literatura do mundo, em especial a argentina.

Separadas em blocos, todas a entrevistas são precedidas de palavras-chaves que ambientam o leitor sobre o que será discutido. A primeira conversa tem uma preocupação maior em investigar a infância do autor. Casares revive as casas que morou, em Buenos Aires (Fui feliz nas duas casas), e os verões no campo, nas estâncias de sua família. Da escola, recorda que foi humilhado por um professor de álgebra, e dos primeiros contatos com os livros, que se deu com as aventuras de Pinóquio.

No início da vida adulta, lembra que tentou ser um grande administrador de terras, tal qual o seu avô. Fracassou terrivelmente, assim como no cuidado de sua saúde (tinha dores de cabeça monstruosas). As derrotas, contudo, não lhe roubaram a certeza da felicidade, pois, analisa, é um estado que nunca associou a bens materiais.

Sobre esse tema, cheguei à conclusão de que há dois grupos paralelos no mundo. Um é dos que procuram felicidades que se acabam com a conquista, que são as pessoas que trabalham em empresas e produzem as coisas que os outros consomem. O outro grupo, ao contrário, é o das pessoas como eu, que procuram felicidades que vão além da posse. E disto lhe dou um exemplo: a poesia. Se alguém sabe um poema, continua toda a vida com ele. Por isso, pode ser que aqueles (os do primeiro grupo) no final de suas vidas se desiludam, e nós, ao contrário, podemos seguir um pouco mais sem nos desiludirmos tanto.

Casares se lamenta por ter começado a escrever tão cedo. Relata que seus primeiros livros eram formados por histórias recriadas de sonhos (Achava meus sonhos muito vívidos e divertidos; mas sonhos são divertidos para quem os sonha, não para quem os escuta), das quais se envergonhou com o tempo. Digerir as críticas negativas também foi duro, embora se sentisse “muito mais ferido por não ter acertado com os livros”. Para o amadurecimento da escrita, porém, entendeu como necessário.

Alguns jovens me oferecem livros como uma expressão de amizade ou de afeto, mas não para que eu os leia. Porque eles sentiam que aquele livro não os expressavam e que o livro bom seria o que estavam escrevendo, observa.

Guiado, então, por uma frase do filósofo francês Henri Bergson, que afirmava ser a inteligência a arte de sair de situações difíceis, trabalhou com afinco na construção de A invenção de Morel. Casares narra detalhes sobre o processo de feitura de sua obra-prima, trazendo curiosidades deliciosas sobre o que está no livro (a escolha do nome Morel, por exemplo) e fatos externos que envolveram sua criação (Borges leu o manuscrito e detestou). Mais à frente, o autor comenta suas impressões sobre as adaptações cinematográficas do romance. De fato, A invenção de Morel é um dos assuntos recorrentes das entrevistas.

Outro, como não poderia deixar de ser, é a amizade com Borges. A princípio marcada por contrastes (idade, visão de mundo, gosto literário), a relação entre os escritores evoluiu para um grau de cumplicidade em que conversavam sobre a elaboração de seus contos. Um perguntava ao outro: “O que vamos fazer com este personagem?” ou “Como vamos armar esta história?”. Foi desse modo que nasceu a ideia da organização da Antologia da Literatura Fantástica, de 1940, que teve ainda a mão de Silvina Ocampo, esposa de Casares. Um fato interessante é que, para Borges, o termo “fantástico” não era dos mais adequados.

(…) compreendemos que na literatura fantástica alcança-se a eloquência dando importância quase que apenas ao fato fantástico; e que este apareça um tanto misturado à realidade, e que possa deixar uma dúvida sobre até que ponto é fantástico ou não… Porque, senão, o leitor não nos acompanha na credibilidade; se ele sente que algo é totalmente irreal, não consegue lê-lo.

Julio Cortázar, que participou da versão definitiva da antologia fantástica, de 1965, é mencionado numa passagem na França, que se desdobrou numa amizade selada com trocas de cartas. Casares relata outros encontros especiais com conterrâneos (fiando uma lista de autores argentinos pouco ou completamente desconhecidos no Brasil), e outros escritores estrangeiros, a exemplo do inglês Graham Greene e do norte-americano Julien Green.

Diante das perguntas envolventes de Sorrentino, o entrevistado apresenta uma memória expansiva e um conhecimento literário incrível, discorrendo sobre sua obra e suas influências ao mesmo tempo que oferecendo observações críticas de autores e livros. Não há qualquer propósito de estimular controvérsias, contudo algumas declarações são um tanto polêmicas, como nas opiniões sobre Moby Dick (É um pouco como uma ópera, uma coisa que está em exaltação permanente, e não sei se é suportável…), o uruguaio Horacio Quiroga e o norte-americano Edgar Allan Poe. De Quiroga não gosto e acho que escrevia muito mal. E Poe, com exceção de O relato de Arthur Gordon Pym, de que gostei muito, me parece truculento e barato, avalia. James Joyce e seu Ulysses fica no meio-termo: Esse livro me fez muito mal, mas também me influenciou muito.

Por outro lado, há elogios rasgados para Franz Kafka e para os russos. Casares passeia por temas, com desprendimento e clareza, sem se ocupar em revestir com filtros suas considerações. Reage contra aquilo que seu entrevistador aponta. Assim, num momento fala sobre as transformações sociais da Argentina, num outro reflete sobre o desgosto dos franceses ao banho. Aqui e acolá, ganham espaço reflexões de natureza coletiva e particular (a exemplo da escolha do melhor tango argentino), e inconfidências saborosas, tal o comentário sobre o sentimentalismo abobalhado de Borges em relação à mulheres. Parece um escritor racional, e no entanto…

Lamentavelmente não se adentrou nos anos de chumbo. Casares tece observações sobre o nazismo, mas nada fala sobre o período da ditadura militar na Argentina, uma das mais sangrentas da América Latina. A “culpa”, neste caso, é de Sorrentino. Fica nítido seu interesse em extrair do velho escritor retratos de sua biografia e instigar uma autoinvestigação pelos motivos que o levaram a dedicar toda sua vida adulta a produzir e a consumir literatura.

Nesse quesito, triunfa. Em certos momentos, Casares beira ao pedagógico, ao falar sobre construção narrativa, as técnicas para se criar um conto fantástico e o uso da escrita para favorecer o fato ao invés da palavra (Jamais gostei das palavras por si só, e vejo que atualmente há romancistas que têm prazer em acumular palavras, e o leitor não consegue saber de que diabos eles estão falando). Sua análise sobre a relação de prazer e de desagrado causada pela escrita de um conto e de um romance é estupenda.

Regularmente invento histórias. Não se passam dois ou três meses sem que eu tenha uma nova história. E, então, se estou escrevendo um romance, quase vejo essa nova história como um alarme, porque traz elementos que entram para o meu desassossego, para pedir que me ocupe deles, para, talvez, convencer-me de que estou num projeto que não vale a pena continuar e que o melhor seria escrever o conto que desejo escrever, por que cada vez que invento uma história tenho vontade de escrevê-la. Mas os contos, o entanto, também têm seu lado ruim: quando alguém escreve um conto e depois escreve o segundo e depois o terceiro… e depois o quarto… começa a se perguntar se, apesar das diferenças evidentes que há em uns e outros, se ele não está se repetindo… Porque a pessoa é a mesma e tem suas manias, e em todas as histórias escritas essas manias encontram um pretexto para se apresentar e para pedir atenção. E se isso pode se repetir continuamente. Definitivamente, o romance é, nesse aspecto, mais discreto, porque é uma história longa e o autor mais ou menos a organizou…

Seja no conto ou no romance, porém, as conversas com Casares são uma ótima maneira de se reavaliar uma visão, de tomar o leitor pelo elóquio e conduzi-lo, através de reflexões e dos meandros da produção criativa, ao universo particular de um escritor que acabou eclipsado pelos vultos de Borges e de Cortázar. Casares é gigante, e precisa ser mais lido por quem ama a literatura de modo geral e, sobretudo, por quem pensa em embarcar nessa ilha de desafios e simulacros. Para aqueles que não conseguirem resistir, vale a dica do mestre, quem construiu a ilha:

Não se pode cortar caminho, não existe outro remédio a não ser cometer erros para poder aprender. O mal é que cometi os erros em público, não em particular.

Estejam avisados.

 

 

***

 

 

Livro: Sete conversas com Adolfo Bioy Casares

Editora: Penalux

Avaliação: Muito Bom

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