Declaração de amor ao fazer literário

Horácio é um escritor no meio de um bloqueio criativo. Em visita ao Metropolitan Museum, em Nova Iorque, ele busca inspiração entre “Monets, Van Goghs e Matisses”.

É uma viagem de família, custeada pela esposa. Enquanto não volta a escrever, é ela quem banca a casa. Anteriormente, ele contribuía com o pagamento de traduções, mas largou de mão pois considera a tarefa chata. Faz, então, os serviços domésticos e cuida dos filhos, aguardando um lampejo e remoendo o desejo de ter sido um astro do rock.

De repente, depara-se com a imponência da estátua de Diana. Uma deusa em bronze, empunhando arco e flecha. Horácio começa a sentir algo fagulhar da contemplação do monumento, quando é acessado por uma estranha. Ela questiona a demora do livro novo, puxa um cartão e lhe entrega. Chama-se Florence.

Sem mais nem menos, a mulher afirma que agora eles têm um “pacto irretratável”. O escritor deverá enviar, para o e-mail dela, um conto inédito, no prazo de seis meses. Daí, ela retorna com sua impressão do texto e também um conto da própria lavra, para que ele, da mesma forma, possa avaliá-lo.

Escreve para mim. Para que eu possa escrever, meu anjo literário, ordena/suplica Florence.

Esse é o mote do romance O abismo entre nós, de Criz Vazquez. O livro de estreia da autora gaúcha radicada em Santa Catarina usa a produção literária como fio condutor de um relacionamento distante, simbólico, platônico, que vai se amoldar, durante duas décadas, através da troca de correspondências.

Florence é casada com um cônsul que, a cada ano, muda de embaixada. Trinidade e Tobago, França, Peru. Com ele, tem uma filha, mas não consegue fixar afeto tanto quanto endereço. É cidadã de lugar nenhum, solitária, subjugada. Até sua paixão pela escrita é menosprezada pelo marido.

Os e-mails trocados com Horácio vão se tornar, portanto, a experiência de um segredo compartilhado, ao mesmo tempo que uma chave de inspiração. Numa das primeiras mensagens, a remetente propõe ao escritor se utilizarem da técnica do mise-en-abyme (em francês, narrativa em abismo), que consiste em extrair um trecho da obra de um autor e inserir no próprio texto, com a finalidade de se criar uma obra completamente distinta da original.

A partir daí, as correspondências se interpõem a breves ficções de estilos e de naturezas diversas; e igualmente o romance completa sua estrutura compósita, a partir de três alicerces: os e-mails, relatos sobre o cotidiano dos atores da trama e os contos. A narração também alterna-se entre a primeira e a terceira pessoa.

Simbolicamente, os contos funcionam como espelhos ou véus do andamento da relação entre Horácio e Florence. Mais que exercícios de escrita, os personagens se apropriam do espaço ficcional para refletir ou dissimular seus anseios, seus ardores, as impossibilidades ambientadas na distância. As histórias dentro da história, neste caso ainda que motivadas por temas aleatórios, servem para amarrar a jornada dos interlocutores, guiando secretamente o processo de aproximação.

Cris Vazquez constrói uma história de amor entre seres à deriva em suas próprias existências, que se conectam por meio do fazer literário, da articulação de um sentimento que depende da escrita para se conformar. Desse modo, a autora torna a literatura o centro temático do argumento da história. A ficção e a realidade se entrecruzam, criando, sobre a perspectiva dos personagens, a perspectiva do escritor. A busca da musa inspiradora por Horácio passa a ser o moinho do desenvolvimento narrativo.

Não é algo simples de fazer funcionar, porém. O texto autorreferencial, dirigido pela ficção que percorre segmentos ficcionais para se constituir, demanda habilidade para não se tornar um apanhado de estilhaços narrativos, confusos e maçantes. Dentro da maquinação do enredo, a autora se sai bem, equilibrando o exercício de reflexão literária com o trabalho de formação de seus personagens, caracterizado por uma linguagem elegante e intuitiva que aposta na dimensão psicológica e na comunicação com a arte.

O abismo entre nós é um livro que declara, em seus limites internos e externos, a paixão irretratável pelo ofício da escrita.

 

 

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Livro: O abismo entre nós

Editora: Moinhos

Avaliação: Bom

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