Nas entranhas do meio literário

A feira, de Adriana Armony, tem um propósito muito específico: expor as entranhas do chamado meio literário. Para isso, a autora se vale de arquétipos através dos quais o espaço narrativo ganha volume. É um tipo ousado de desenvolvimento, no qual a trama avança a partir da construção dos personagens.

A feira do título faz referência à festa literária, que é o epicentro do livro, mas também à feira de rua; aquela onde se encontra uma sorte de produtos, repetidos e em diferentes estados de valorização. Entre os tipos que compõem esse microcosmo da vida literária, estão os vendedores e os compradores, negociando aquilo que (desculpe-me desencantá-los) o autor e seu livro rigorosamente são: produtos/objetos de um comércio de mais valia.

Dessa galeria, fazem parte A Editora, A Curadora, O Aspirante, O Escritor Talentoso, A Promessa da Literatura, O Best-Seller e A Dona da Feira. Em maior ou em menor grau de atuação, todos se preparam para o evento à medida que têm de lidar com questões de natureza pessoal. É um conceito muito interessante de metaliteratura.

O romance, então, se monta no movimento dessas pequenas cenas que, ao longo do percurso Preliminares, Festa, Abertura, Meio e Consagração, vão concentrar os tipos num mesmo ambiente e, por consequência, promover alguns encontros.

Situações particulares desses acontecimentos, a exemplo de entrevistas para cadernos de cultura e participações em mesas de debate, irão se conflitar ou se coadunar com atribulações de naturezas internas. Um tipo de jogo de máscaras que, diante de um dispositivo de projeção, redimensiona suas psicologias.

Adriana se vale de uma linguagem muito próxima da analítica para explorar um território marcado por brigas de ego, vaidades, assédios, mentiras e demonstrações de poder.

O objetivo é pesar a mão na caricatura, nos clichês, para que o extrato deste artifício hiperbólico revele níveis de humanidade que (digo, por experiência) não está longe da realidade. O humor sardônico brinca com o ridículo, sem nunca menosprezar. É satírico, sem que a motivação da autora seja o rancor.

Ao fim, a narrativa regula um tom convencional para acessar a voz da própria autora, que sugere ao leitor avançar ou não num mistério relacionado à autoria de um livro.

É mais uma artimanha nesse tabuleiro de ardis, de peças que se posicionam sobre lentes de aumento e espelhos, sendo a mais instigante delas (para quem conhece o mínimo do meio literário) atribuir a cada um desses ilustres personagens um nome a sua escolha.

 

 

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Livro: A feira

Editora: 7 Letras

Avaliação: Bom

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